Primeiros turnos...




Por se tratar de um evento obrigatório e de tamanho continental as eleições no Brasil tendem a se tornar sempre algo histórico. Queria a gente ou não. Eleição presidencial, seja pela despolitização de todo o processo, é quase uma Copa do Mundo. O que chamam de “polarização” nada mais é que a boa e velha luta de classes, que nesse jogo de cartas marcadas e dados viciados das elites serve para manipular pesquisas, controlar a opinião pública, criar ou destruir candidatos. 


Com o transporte gratuito na região metropolitana do Recife sendo novamente liberado no dia da votação, e tendo que enfrentar quase uma Odisseia do Nolan, pude recolher algumas pérolas. 


-Inteligência- 


Uma jovem toda de preto e parecendo ter saído de um remake da Família Addams soltou essa a espera do metrô: “eu mesma entro mesa. Não sou nem de direita nem de esquerda. Vou votar no Augusto Cury”. 


-No metrô-


Mesmo não sendo como foi em 2018, ainda pude ver vários eleitores com camisa falsificada da CBF indo voltar no filho do mito. 


-Costume-


Um boy entrou no busão em plena três e meia da tarde. Camisa da CBF pirata. Foi logo pulando a catraca e virando motivo de chacota. O motorista foi o primeiro a soltar o riso: hoje é de graça, Antônio. O riso tomou conta de todos enquanto João sentava. O sorriso acabou (por um breve intervalo de tempo) com a polarização. 

No meio do ônibus alguém não aguentou: tinha que ser bolsonarista. E voltou aquele clima de final de Copa do Mundo de novo. 


-Sagacidade-


No busão, um motorista largando do trabalho conversa com outro. Ambos deixam a impressão de que dirigem para os aplicativos nos dias de folga. Um resumo da situação financeira de nosso povo. Entre comentários do tipo hoje eu acho que não vou correr, não um deles solta uma pérola: rapaz, me deu foi um branco lá na hora, o número do candidato que eu digitei não tava aparecendo, a cola que eu fiz me deixou foi na mão. Mas votei no Renan. Com força. Na hora só me veio o número dele. Lembrei do Lula e do Flávio correndo dele no debate lá. Quem manda? 


-Fé-


No banco de trás, um casal discute. Ambos pretos. Religiosos. Ela com uma camisa amarela. Ao que parece divergem em relação ao voto majoritário. Ele solta um Lula lá quando passa alguém na rua, ela fala do 22. Em determinado momento a brincadeira começa a ficar um pouco mais grossa e alguém hasteia a bandeira branca. Mudam de assunto. Ao conferirem a cola dos candidatos para os outros cargos o motivo (talvez) do fortalecimento da relação: ao revisarem certo nome de um candidato, a esposa questiona o marido, e o varão solta mais um pérola: tem o candidato que eu voto e o candidato que me paga. Essas interpretações da Bíblia em tempos de redes digitais estão realmente muito amplas. 


-Carreirista- 


O cara colou de suplente um fascista jurando que o povo é burro.


-Esperança-


Uma mulher me pediu adesivos da Samara Martins quando olhou minha camisa. 


-Poesia-


Ele já não sabia

Quem era

Ou quem o possuía


O político corrupto 

Ou o candidato da orgia 

“Deu, Pai e (minha) FaMílIa”


-Tradição-


Mas se tem uma coisa que pacifica e coesiona o povo sofrido da região metropolitana é aquele banho de mar no domingo da eleição. As famílias se organizam dias antes. Se tem a grana da compra de voto envolvida eu não sei. Mas tem aqueles que madrugam na fila para chegar na praia mais cedo, tem aquelas mães que deixam o almoço pronto, votam e na volta juntam todo mundo, tem aquelas disputas profundas e intermináveis para saber qual das marcas de cerveja são as melhores e tem aquele esticar as pernas, estirar das costas, o refletir das coisas, pois o povo trabalhador sabe que amanhã, segunda, independente do resultado será ele quem vai ser convocado pelo irmão Sol para fazer a roda girar e moer mais um bocado. Mas uma coisa mais uma vez fica na minha cabeça: é ouvir por diversas vezes, idades e gêneros um gostinho de futuro questionando uma coisa que, embutida e escondida entre a corrupção e o desperdício de dinheiro público com santinho para sujar as ruas, a pergunta: por quê danado a porra do ônibus não pode ser de graça todo dia, hein? Não tem outra: entre o sufoco nosso de cada dia, um pouco de respiro nesse mundo sem fôlego, e a gente se pega pensando o futuro.

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