Chinelo de dedo e Feliz Ano Novo




“A sociedade tem demandas que precisam ser atendidas”, lembrou um ator exaltado em um programa de TV, num raro momento de crítica ao que chamamos de indústria da informação. O momento “viralizou” e o “corte” rendeu ao ousado entrevistado um desligamento da emissora pela reincidência ousadia de questionar fatos.

Os tempos mudam. Algumas coisas simplesmente não cabem mais, como aquela camiseta que gostávamos quando éramos mais jovens, que simplesmente não entra mais em nosso corpo. Hoje a referida TV simplesmente não comporta mulheres sendo constrangidas tendo que pegar sabonetes dentro de uma banheira, atores internacionais de talento duvidoso tendo ereções ao vivo em pleno domingo de tarde ou playboys passeando classificando mulheres em praias.

“O PCC do Gugu” se descobriu criminoso e pouco aceitável, num momento onde, mesmo que acesso ainda se confunda com garantia de alguma coisa, a informação se encontra, literalmente na palma de nossas mãos.

“Não há nada de novo sob o sol”. Essas demandas da sociedade, algumas, são substituídas, outras continuam. O esgoto que era parte da TV brasileira foi transportada para as redes, sendo pulverizadas e potencializadas ainda mais. Hoje, a figura do “tiozão do zap” ilustra bem aquilo que sempre foi a figura abjeta do cidadão médio, deformado pela falta de cultura e pelos discursos de ódio fomentados desde antes de 1964.

O hipócrita “deus, pátria e família” vem sendo gestado não é de hoje. Incrível que, o mesmo “tiozão” que passa o dia assistindo vídeo de gente morrendo em acidente de carro ou sente tesão em duvidosos vídeos de PMs assassinando gente pobre ou gasta horas caçando “lacração” por meio de seus perfis falsos, geralmente destilando ódio contra negros, gays, mulheres e filmes para adolescentes com atores e cachês duvidosos.

Agora o patriota volta toda sua raiva contra o chinelo de dedo. Sim. Em um ano onde historicamente vimos generais golpistas, um ex-presidente e ex-ministros indo pro xilindró, mesmo que as celas mais pareçam verdadeiras suítes de hotel cinco estrelas, e os escândalos envolvendo a bancada da Bíblia, da bala, do Agro e toda a subdivisão dos rótulos dados por essa velha imprensa conivente sustentada por essa extrema direita ridícula são geradas feito “gremilins” jogados na piscina resolveram, desesperadamente, atacar o chinelo de dedo, coisa, aliás, tida marcadamente como coisa de pobre.

A Alpargatas, dona da marca do chinelo “atacado” vai muito bem, obrigado. A empresa coitadinha é detentora de marcas como a Dupé, Rothy’s, que faz a linha do discurso do capitalismo sustentável e já ostentou marcas de peso como Osklen, Rainha, Topper, Mizuno e a clássica Conga. A mesma imprensa rasteira noticiou que a empresa “sofreu uma queda na bolsa de valores” após o inflado e insuspeito boicote dos patriotas para a sandália que recebe, coincidentemente o título de símbolo do país.

A mesma imprensa não falou um “ai” sobre a greve da BYD em Camaçari na Bahia nem se posicionou quando, um dia depois do “mito” tentar uma vexatória fuga, envolvendo uma vigília fascista, uma máquina de solda e uma tornozeleira eletrônica, e que em resposta o governo de Santa Catarina realizou uma verdadeira ação criminosa “digna” dos tempos do AI5, onde reinava a censura e os jornais eram obrigados a estampar receitas de bolo no lugar de seus editorias.

A Alpargatas vai muito bem, obrigada. Uma pesquisa rápida nesse “computador de mãos” e, Voilà: A Alpargatas vale atualmente cerca de R$ 7,3 bilhões na bolsa de valores brasileira na B3. Enquanto isso, na porta da empresa, o sindicato da categoria faz uma denuncia sobre o que é a Mais-valia.

Fim de ano chegando e a extrema direita, como diz o dito popular, “tá sem assunto”. A sociedade tem demandas, lembrou o ator, que foi demitido do canal famoso, o mesmo que não fala bem de greve nenhuma, o mesmo canal que inclusive apoiou a ditadura. É por essas e outras que Papai Noel não vem descer nas chaminés das casas brasileiras em mais um Natal.

 É por essas e outras, também, que a rede Globo não mostra as mobilizações das famílias do MLB no Natal Solidário (MLB. Não confunda com o MBL. Esses aí a imprensa brasileira fala, abre espaço, banca e tudo mais) por exemplo: milhares de famílias carentes de todo o Brasil, ocupando grandes redes de supermercados para cobrar a verdadeira solidariedade cristã propagadas hipocritamente por essas elites.

Enquanto isso, aposto que você deve ter em sua casa um chinelo de dedo desses aí, inclusive com um prego segurando as pontas, do mesmo jeito que a classe trabalhadora vai segurando as pontas no dia a dia e exigindo suas demandas, algumas que já não cabem mais nas mentiras e propagandas ou nas falsas polêmicas levantadas pelas redes sociais, as mesmas redes que pertencem aos donos das grandes empresas que lucram com nosso sangue, suor e lágrimas e fazem rios de dinheiro mentindo pra nós.


Comentários

  1. Parabéns pela reflexão necessária. Temos lutas concretas urgentes e a imprensa pauta polêmicas fictícias

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  2. Belo texto! Parabéns camarada

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