Molho. . .
Não deu outra: teve que viajar de última hora e de todo o jeito. Não tinha tido contato com a mãe durante a vida inteira. Criada com a avó em Recife, sua mãe teve um AVC inesperado. A pedido da avó, pegou o último acento no último ônibus para a Bahia em plena sexta-feira. De toda forma, estava decidida: resolveria a documentação da mãe, deixaria as coisas encaminhadas para aquilo que fosse preciso, e voltaria no domingo de noite. Segunda-feira era dia de trabalhar.
Mais de doze horas, e oitocentos quilômetros e muita paciência do Recife até lá. O encontro com a mãe foi furtivo. Desceu na rodoviária, pediu um táxi, foi até o hospital informado e, durante uma meia hora, ouviu dela e do médico o quanto seu estado era delicado mas estável. Com um pouco de atenção, tomando os remédios direitinho e tudo vai ficar tranquilo.
Na saída, a mãe pega em sua mão, lhe faz um carinho e pede desculpas pela ausência. Eram outros tempos. Tinha que trabalhar, estudar, dar conta de um casamento em crise e uma criança não ajudaria. Foi sincera. Pelo menos a mãe conseguiu ajudar. Indo para um hostel indicado por uma amiga (ela se recusou ficar e conhecer o resto da família materna), o trajeto e a conversa lhe deixaram reflexiva.
Noite longa, vamos ao bar conferir se a coisa ainda anda bem, como nos velhos tempos. Volta cedo para descansar, umas duas e meia da madrugada. Não fosse o ter que retornar o mais rápido possível viraria a noite, bebendo vinho, sorvendo o caldo cultural que o centro de Salvador tem a sempre oferecer. A Bahia tem seus contrastes e contradições. Majoritariamente negra, apesar de os negros só serem vistos em posições subalternizadas, servindo mesas, fiscalizando bares, vigiando portas e varrendo ruas, enquanto uma elite branca usufrui daquilo que definitivamente não foi construído por eles ou por seus ancestrais. Mas não quer pensar nisso. Não agora. Não aqui.
Já é domingo, pensa ela. Que se pode fazer para matar o tempo, passar a vida, enquanto não de dá a hora de voltar? Confere o valor da viagem de volta para o hostel antes de solicitar. Está dentro do esperado. Cinco minutos e a caminho, quando percebe um rosto familiar em sua frente. É Castro Alves, um ex-namorado que, a despeito de um nome nada suspeito, não é nem um pouco baiano. Formou-se com louvor em história, finalizou com êxito mestrado e doutorado e hoje vivia cada dia seu sonho e promessa de calouro: era professor de teoria e crítica literária, premiado em alguns círculos acadêmicos e ainda era guia turístico voluntário em um projeto de imersão literária sobre os autores de quem ele conversava como se fossem velhos conhecidos seus, o que lhe credenciava para comer sem compromisso, alunas de pós-graduação estressadas ou pesquisadores com bloqueio dissertativo argumentativo, que ele fazia questão de quebrar entre seus músculos torneados de quem nunca faltava a uma academia logo de manhã.
- Você não está mais feio. Antigamente eram os livros que te levavam pelos corredores. Dava nem pra te ver direito. Era você, os livros e cabelo.
- . . . E aquelas fardas. . . Não esqueça das fardas.
- Sim. . . As fardas. Você vivia indo de uma escola a outra, de um cursinho a outro, resumo após resumo, ficha técnica, visita acadêmica, congresso, simpósio, aula extras e monitorias... Vejo que deu certo.
- E foi qual o motivo, mesmo que a gente terminou?
- Agora não vem ao caso. Eu nem me lembro. Talvez pelo fato de você viver insistindo que, primeiro os estudos, depois a diversão, não era? Algo desse jeito.
Num impulso, cancelou a corrida. Pagaria uma multa. Cinco minutos sentados na calçada e mais uma cerveja. A vida do poeta reencarnado parecia uma festa. Não havia tédio e ela decidiu que queria provar daquilo. Sua vida de casada era uma merda. O marido, sempre trabalhando, sempre ocupado, sempre meditativo. Desistiram de ter um filho bem antes da rotina os consumir, transformando-os em quase irmãos, com um sexo protocolar, quase meditativo, faltando apenas ser marcado no calendário, tamanho tédio, e a vida que só lhe jogava bombas e broncas, como essa da mãe distante e agora quase em estado de vida vegetativa.
Pediram um novo carro. Nem se quer apertaram o sinto e já foram se pegando. Não tinha nada a perder, dizia ela quase num mantra vingativo às avessas, lembrando da sempre protocolar posição do marido, em dias de disposição para ela. Não inovava. Era a mesma cerimônia desde os primeiros dias de casamento. Servia? Dava para o gasto. Mas agora não. Não depois dos mais de 20 anos de casório sem caso, sem amante, sem aquele cruzeiro prometido tinha uns dez anos. O motorista do carro, finge que nada está acontecendo. Já viu de tudo naquele trajeto. Ambos não botam nem o sinto. A aréola do mamilo endurecido, apontando bem o que o seu corpo sinalizava. O do poeta, por sua vez, não escondia a que veio. A mão da moça passeando por entre a calça, procurando novidade, como costumava fazer nos tempos de faculdade, em que ele era mais tímido, mas não negava diversão em terras alheias. Por um minuto pararam. Riram. O motorista lembrou, bonachão, a necessidade de colocarem o sinto.
Voltou ao hostel, pagou sua conta e seguiu para um motel cinco estrelas em que o ex jurara não haver possibilidades de atrasos. Passou toda a manhã bem acompanhada. Almoçaram no restaurante Egeu, no bairro da Barra. Ela desistiu de última hora de voltar para o Recife, ligando para sua chefe para avisar que tivera um contratempo com a mãe recém descoberta. Não voltou ao hospital. Voltou ao hostel naquele domingo de noite, voltar para a rodoviária logo pela manhã. Voltaria para sua rotina, talvez não levasse em consideração as coisas que a mãe lhe disse nem sentiria remorso alguma pela partida daquela desconhecida. A transa com seu ex tinha sido realmente muito boa. Os anos serviram para fazer daquele nerd franzino um bom amante. Mas não teria significado nada além daquilo. Voltaria para sua rotina, seu trabalho tedioso, sua vida vazia mas teria algumas boas horas para descansar, dormir profundamente, longe da lembrança das cobranças, faturas, boletos, relatórios e uma casa enorme e vazia. Em algum ponto da estrada não pegaria nem internet. Havia calmaria. . .



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