Sete cervejas e três vizinhos
Eram três homens velhos, três desocupados, cabelo branco aparecendo na cabeça, mas calharam de sentar na esquina da rua e ficar de dominó, de pagode alto tocando na JBL, latinha de cana com sardinha e azeitona e muita fofoca. Foi só a Copa do mundo começar para eles baterem ponto. Desocupados e fofoqueiros.
O dominó era só a desculpa. O que faziam mesmo era olhar a vida dos vizinhos, o andar de quem passava, o carro novo lá do recém chegado e, claro, as filhas e as mulheres dos outros. Mas naquele dia terminou tudo em confusão. E das grandes. Das boas.
Por ter chegado ao fim a latinha de cana foi solicitado a um dos filhos de alguém que fosse até a esquina, botar no pindura umas duas latinhas de Pitu. Não tinha. Pra não dar viagem perdida, e ficar com o troco, o menino pediu cinco latinhas de cerveja, que acabaram virando sete e pediu para si dois pacotes de biscoito.
A sardinha tinha acabado cedo. A azeitona não tinha durado, e as latinhas de cerveja, justo naquele calor desgraçado, praticamente evaporaram. Tinha dias que aqueles desocupados nem almoçavam. Dava meio dia e eles já se aboletavam por ali. Para aproveitar o ventinho. Mentira! Eles faziam mesmo era olhar as meninas indo para a escola estadual que tinha ali perto, junto com as moças que, naquelas horas, iam e voltavam da academia. As conversas eram tão inóspitas, tão desavergonhadas, tão nojentas que não vou nem me dar o trabalho de reproduzir.
Naquelas tardes, entre os comentários sobre moral, família e bons costumes, uma passada de olho na filha de alguém interrompia a conversa. Em casa, quando questionados, aumentavam o tom com suas esposas. Tavam fazendo nada demais. Era só um papo cristão entre amigos. Para a igreja, ou bater uma laje ninguém ia.
Foi aí, lá pelas três e meia da tarde, véspera de jogo da Seleção brasileira que o caldo azedou.
-Olha prali que duas coisas mais gostosinha.
-Disfarça, porra. Num olha agora não.
-Eita Lapa de rabo du carai! Tu precisa ver.
E ele viu. Não só viu como deu boa tarde e tudo. Era a mulher e a filha dele que iam felizes para seu primeiro dia na academia. Foi só elas dobrarem a esquina para começar a baixaria. Foi tanto soco na cara, tanto murro trocado, tanto cuspe jogado que os vizinhos tiveram que chamar a polícia.
-Que nada, rapaz! Tua mulher é que é puta! Vê se mulher decente vai tá andando em porra de academia, rapaz!
-E tua mulher tá aonde, corno? Onde é que ela fica quando tu tá aqui a tarde todinha, corno safado?
Sobrou até para os laranjinhas. Bem feito, esses que passam o dia andando e olhando pro celular. Quando o agora ex-amigo, acredito, soltou essa de chamar o cara de corno, ele não se aguentou. Se desvencilhou da polícia, pegou uma pedra grande e atirou contra o vizinho. Não acertou. A pedra pegou de cheio na viatura novinha, comprada exclusivamente para andar no centro do Recife e fazer a propaganda para a governadora tentar se reeleger.
O laranjinha puxou o cassetete, e antes da investida no meliante tomou uma tapa indireta na cara. Bem no meio do ouvido.
-Tá me chamando de corno também, é?
Foi muita tapa. Precisaram chamar outra viatura para levar os três arruaceiros. Fim da tarde, mãe e filha estão de volta em casa. Reparam em um certo silêncio.
-Teu pai não comprou o pão na padaria.
-Deixe que eu vou, mãe.
O filho se prontifica. Mãe e filha se organizam, trocam elogios de frente ao espelho e comentam suas impressões sobre a academia nova. O dia foi muito bom.



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