Encontro de colégio
Realizar um encontro de ex-alunos pode ser uma das coisas mais difíceis no mundo das festas, eventos ou entretenimento em geral. Em geral porque, estando os antigos amigos separados por anos de trabalho, endereço, geografia, religião, filhos e política, o encontro pode terminar frustrado ou em decepção. Se o reencontro for da universidade, talvez, seja um pouquinho mais fácil de articular. Em se tratando do ensino médio, a complexidade é tão maior que uma receita para dor de cabeça é quase garantida.
Ritinha tinha encontrado os contatos de todo mundo do terceiro ano A, turma de 2001 do ensino médio. Em sua cabeça, a turma dos sonhos. Um experimento social que deu certo. Como ela conseguiu os contatos de todos, especialmente em época de redes digitais.
Ritinha sempre foi a representante da turma. Estava acostumada a desafios primeiro mergulho dias no Facebook. Missão inglória. Pesquisou meticulosamente entre seus quase quatro mil seguidores, grupos e pastagens antigas. Foi naquela aba de recordações, postagens antigas, vídeos e fotos marcadas para encontrar boa parte de seus antigos colegas, ex-paqueras, desafetos e vizinhos de banco e corredor, aqueles que não necessariamente dispensamos atenção ou possuem nossa amizade, mas estão ali.
A antiga professora de português, Elena, tinha dispensado apocrifamente, claro, uma antiga foto da listagem do experimento social bem sucedido da escola Poeta Olavo Bilac. Dos 47 alunos regulares, apenas 3 não foram contatados ou trazidos, quase que forçadamente, para o grupo do zap “amigos do Olavo 2001”: Marcelo Melo, que tinha se tornado Hippie, mudado para o Chile e morava nas montanhas. Ele simplesmente não usava redes sociais, mal tinha celular e não possuía nenhuma vontade de voltar para o Brasil. Seu irmão mais novo, que era de uma sala vizinha aos ‘anjinhos de dona Sandra’, antiga diretora assegurava que seu irmão não tinha mais cabeça para questões materiais, fossem ela de que tipo fossem. Para os pais, mandava anualmente uma carta.
Aluísio Paiva morava muito distante e Maria Bernadete não fora encontrada. Pistas davam conta de que teria se mudado para os EUA de forma não tão legal como manda o figurino. Sua mãe, ativa no telegram , aconselhava desistir. Nem o nome usual a filha usava nos últimos tempos.
Foram três meses de um trabalho hercúleo de Ritinha, que tinha se formado em Secretariado pela UFPE e se especializado em RH nos últimos treze anos. Com a pandemia tinha feito uma verdadeira especialização prática. Não tinha informação, análise, argumentação ou desculpa que ela não soubesse interpretar, modificar ou trazer uma resposta, fosse ou não satisfatória. Tinha demitido tanta gente nos últimos anos que as vezes se perguntava se tinha perdido um pouco a sua humanidade. Acordava por vezes com um sonho recorrente onde se transformava em um robô humanoide caçando pais de família em busca de sonhos. . Longe da missa há alguns meses e passando por um divórcio pesado onde seu único filho, a cara e o gênio dela, tendia escolher o pai numa possível guarda compartilhada.
Para ela, aquele reencontro poderia representar uma boa distração, uma boa ação definitiva, um contato com a nostalgia e, antes que se desse conta, aquilo tinha se tornado mais uma missão. Um elemento para reforçar seu argumento e evitar um não seria apelar aos sentimentos. Nesse caso, ela teria duas cartas na manga: localizar e convidar os professores antigos e propor aos antigos amigos que o encontro não seria apenas um encontro. Sebastião, o Tião, simplesmente o aluno mais simpático da turma, amigo da maioria e que tinha sido vítima da leucemia no início daquele terceiro ano seria o elo para forçar, aproximar, melhor dizendo, a todos. Criou o grupo no zap, fez um texto padrão para enviar, junto com um áudio direcionado para quem o recebia, e deixou tudo esquematizado, tudo marcado, grupo erguido, em apenas quase cinco meses de pesquisa, insistência e trabalho árduo. Estava feliz consigo.
Contra fatos não há argumento que se sustente. Ritinha mandava aquela mensagem padrão para os antigos colegas de escola. Um famoso lembra de mim, seguido por um direto estou montando um grupo no WhatsApp pra fins de a gente reunir a velha turma com data e local já definidos. Isso ela tinha aprendido nos porões do RH. Não demonstre pena. Não vacile de forma nenhuma. Se te oferecerem a mão para um aperto amigável, não aceite. No mundo do trabalho ela era praticamente um dos quatro cavaleiros do Apocalipse. A homenagem ao Tião vinha em seguida. E como o reencontro aconteceria na antiga escola, numa sexta-feira, dezesseis e trinta, com 5 dos antigos professores confirmados, 3 desses já aposentados, que só iriam para a escola em honra ao Tião e a sua turma tão maravilhosa, era difícil querer barganha ou negociar. A foto do perfil de Ritinha ajudava muito. A cara dela era a mesma. Diziam os mais chegados que ela tinha feito um pacto com o tempo, senhor de todos nós, para ganhar pelo menos mais 150 anos de juros. Quando sentia que alguém iria dar pra trás ela já emendava no treinamento do RH.
-Eu não sei, Rita. É uma sexta-feira, cheio de coisa para fazer aqui no trabalho. Tô com minha mãe doente ainda por cima.
E ela não perdoava.
- Tu tem quase cinco meses para se programar, cara. Não é possível que tu vai nos fazer uma coisa dessa. Lembra do professor Arapuã?
- Aquele de matemática? Lembro. Num foi ele que teve um derrame num foi?
- Teve sim. Ficou com metade do corpo sem se mexer direito. E advinha: ele disse que ia. Se até ele vai, não 3 possível que você vai nos fazer uma desfeita dessa, né?
O professor Arapuã não era dos mais venerados da turma. Não poderia ser diferente. Era professor de matemática e tinha duas aulas seguidas logo na segunda. Mas o fato dele estar com metade do corpo paralisada, e estava mesmo, mas disposto a ir rever seus pupilos era prato cheio para passar na cara. E isso foi feito. Arapuã era um santo. Convenceu metade da sala. Grupo montado, era hora de pensar a programação, alimentar a nostalgia pedindo fotos antigas, vídeos curtos, aquelas perguntas cabulosas sobre como vocês estão hoje e o que estão fazendo da vida e uma ou outra indiretinha, porque a nostalgia custa caro e ela precisa de muito incentivo antes de andar no piloto automático.
Com sua experiência no fim dos tempos, Ritinha sabia que após criar o grupo as fases dos novos tempos começariam. Era preciso alimentar o cérebro com lembranças antes que a maré subisse. E ela subiria. Com seu talento para PM em Gothan, Ritinha foi em busca e montou um drive com fotos e vídeos da época, fez uma playlist com os Hits que cada um mais curtia e até encomendou um modelo da antiga farda para levar no dia. Quem quisesse adquirir um modelo, ela levaria, no precinho, claro, mas teria uma garantida para que todos os presentes assinassem para a posteridade, com a promessa da atual diretora da escola que uma placa com uma foto atualizada de cada um na mesma pose da antiga foto deles da formatura estaria junto com a farda, que ficaria também exposta, junto com uma mensagem de incentivo para os atuais alunos.
Tiro certeiro. Entre as antigas amigas, pelo menos sete deles ainda morava no antigo bairro, e tinham seus filhos entre os novos alunos do colégio. A flecha tinha atingido em cheio o coração das mães. Terreno cercado, adubado e protegido, era preciso colocar em prática a segunda fase do plano: impor as regras. Para fisgar o peixe não basta ter força. É preciso cansá-lo. Sempre que se tem essa história de festa na empresa, reunião dos amigos, encontro da família, os cônjuges são um problema. E não era isso que Ritinha queria. Definitivamente. Esse negócio do marido ter que levar a esposa para uma festa antiga de colégio nunca deu certo. Com as mulheres a coisa era inda mais séria. Era óbvio que os maridos não deixariam suas mulheres irem. As desculpas seriam muitas: teriam que levar os filhos, os maridos não se sentiriam bem ao lado de pessoas estranhas, fora o horário para voltar. Um absurdo. Pura palhaçada a mulher, para poder ter que sair com as antigas amizades, ser condicionada a ter que levar o marido ou o namorado, os filhos, já que o inútil do parceiro não consegue ficar uma única noite com as crianças enquanto a dona do lar, a empregada oficial da casa e muitas vezes escrava da cama não pode se ver livre do ciúme machista por duas ou três horas, já que o imbecil iria ficar grilado com uma suposta possibilidade da esposa reencontrar um amigo namorado do tempo da adolescência dela. Completo absurdo.
Ritinha já tinha levado isso em conta. Por ser mulher, tinha preparado os argumentos para cada uma das colegas, especialmente a irmã Márcia, considerada uma das mais bonitas de toda escola e que, após três casamentos conturbados, morava sozinha com suas seis meninas e ainda era vítima do olhar intransigente de seu atual namorado, personal, que tinha ciúme dela até com a própria sombra. Pudera. Apesar de irmã, Márcia não negava fogo pra seu ninguém.
Tudo somado, como diria o poema Consolo na praia, do Carlos Drummond. Foram exatamente sete meses de preparo e todo tipo de pirotecnia para chegar naquele dia. As duas professoras que restaram no batente largaria mais cedo e teriam o auditório para fazerem a sua celebração. Ritinha estava radiante. Tão pilhada que nem conseguiu dormir direito naquela última semana. Ela só não contava com a surpresa. Porque a vida é cheia dessas coisas mesmo. Três dias antes e era aquele silêncio no grupo. Dona Marisa, professora de biologia que conseguia a proeza de dar aula em cinco turmas ao mesmo tempo, tinha colocado um texto entusiasmado no grupo, mas sem nenhuma resposta. Jonas, tão caladinho antigamente, tinha se mostrado um ansioso crônico, daqueles que acordava o grupo com três ou quatro bom dia e entupia o grupo com mensagem religiosa. Até ele tinha apertado o freio. Até isso fazia parte do cálculo da nossa guerreira. Uma margem para mais ou para menos. Na segunda feira daquela semana ela tinha dado início ao processo de confirmação para a sexta. O não sei e o vou ver começavam a aparecer. Era esperado. A ideia de um jogo para ser feito na aula da saudade, outra artimanha técnica de Rita, seria lançada na reta final para o encontro. Se tu chega logo dizendo que a parada na verdade vai se chamar aula da saudade, e tu pretender fazer aquela dinâmica de grupo com direito a sorteio para fazer aquelas perguntas do tipo quem você achava o mais gatinho da turma? Ou quem você se arrepender de não ter chamado para fazer aquele trabalho de escola em sua casa no final de semana era o fim da picada. Você consegue imaginar a cena? Isso tudo ao som do Charlie Brown Jr e do Linkin Park?
Aqueles que responderam deixaram para o fazer na quarta feira. E, claro, não no grupo do zap. No privado, com aquela esfarrapada vou ver se dá ou surgiu um probleminha aqui mas já já te respondo.
No dia, apesar 5 pessoas compareceram na festa. Jonas, o mais ansioso para o encontro, teve uma crise de dor de barriga antes e não conseguiu participar. Das cinco que foram, uma delas se quer era da turma A. Tinha sido colocada no grupo por engano e, como não tinha nada para fazer no dia e morava relativamente perto, compareceu. E não fez isso de graça. Deu para notar que a sua missão ali era rebaixar a turma A, enquanto colocava na mesa todo seu veneno resgatando toda a rivalidade entre as duas turmas. Debochou até da apresentação feita nos slides que Ritinha tinha preparado (afinal de contas, o show tem que continuar, não é mesmo?). Joana, o nome da infeliz, fez questão até de lembrar que por dois anos seguidos a turma B tinha levado o troféu da feira de ciências e dos jogos escolares. De quebra, a irmã Márcia teve que levar o namorado ciumento, que só não constrangeu ainda mais os presentes por ter a decência de ficar do lado de fora, esperando em seu carro, pacientemente a amada, apesar da cara feia e dos braços cruzados, mesmo caindo uma garoa por mais ou menos uma meia hora.
Fracasso completo. Os professores não conseguiam esconder o constrangimento. No outro dia de manhã, uma única foto postada por Ritinha, retomando sua postura irônica e vingativa do ensino médio, enquadrava todas as 10 pessoas, 5 ex-alunos e 5 professores, numa selfie mal feita, já que aquele não era domínio mais deles, todos com aquele sorriso amarelo, e um agradecimento curto de Ritinha a todos que de bom grato compareceram após todos aqueles meses de preparação.
Um silêncio absoluto. Dos que foram, dois marcaram a foto com um coração e um tá legal. Jonas, o ansioso, mandou um textão, quase que de meia noite, como se tivesse passado o dia inteiro remoendo o ocorrido, antes de meter os dedos no aparelho, para escrever um texto em que ele, obviamente, se quer pensou antes. No outro dia de manhã apenas 4 pessoas restavam no grupo. Três dos mais desavisados, aqueles que se quer olhavam para o grupo para o bem ou para o mal. E uma frase do Jonas, no finalzinho de seu texto, parecia resumir toda aquele esforço, talvez inútil, servindo apenas e tão somente para Ritinha bloquear todos os contados dos amigos, no celular, no WhatsApp, Facebook, Instagram e no meio do caminho, caso algum deles viesse topar com ela de alguma maneira:
“A gente precisa mudar muito para continuar sendo quem nós somos”.



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