No débito

 


Fazer compras hoje em dia é sinônimo de missão. Entrar num supermercado, desses que tem um histórico indesejado, mercadorias superfaturadas e vive de lucrar com o suor e o sangue de trabalhadores mal lagos.

O desafio de entrar no estabelecimento, pegar um carrinho e tentar enchê-lo sem sofrer um ataque cardíaco, sem sentir toda raiva do mundo com um produto “em promoção” por estar prestes a vencer. Nesse caso, a exigência é mesmo fazer mágica, malabarismo contábil para comprar uma cesta básica que, de básica só tem mesmo o nome.

Gosto de fazer feira. Ir na feira. Tentar escolher pelo menos as frutas que não vão dar raiva no final de semana. E como a situação não ajuda, escolhi dividir em pelo menos três locais diferentes, uma para as carnes, outro para as verduras e o ‘mercadinho’ para o que a gente chama aqui pelo menos no nordeste de ‘o grosso’.

De ‘mercadinho' entenda-se aqueles conglomerados que tomaram de conta dos bairros das grandes periferias e vendem de tudo em seus grandes galpões e operam de uma maneira ‘extraordinária’. Já o ‘grosso’ é só o nome mesmo. Devia se chamar pesado, que faz mais sentido. Farinha, fubá, arroz, macarrão, leite, trigo. Tudo contado e somado para chegar, pelo menos, no dia vinte, que hoje é o nosso novo trinta.

E lá vou eu para o mercadinho, fazer as compras do mês ou da vida. O estabelecimento em que eu vou se apresenta imponente ocupando boa parte do quarteirão. Impossível não notar ele. Seus funcionários, com um fardamento bem distinto, é outra peculiaridade.

Não me pergunte como, mas o ‘mercadinho' abre de domingo à domingo, das 7 às 22 e possui uma aura de templo religioso duvidoso que chega me dá pena. Seus funcionários, todos sorridentes enquanto tocam aqueles hinos intermináveis, com refrões que lembram verdadeiros mantras, vão ali definhando, sendo sugados por aquelas caixas registradoras ou desaparecendo entre prateleiras que nunca ficam vazias e que nunca baixam de preço. Zumbis fardados. Alguns. Outros, corpos sem almas, condenados pela escala 6X1, purgando boletos que nunca deixam de ameaçar, seja em pleno domingo, feriado ou aniversário.

Dia de domingo é o dia mais triste. Coincidentemente é também um dos melhores momentos para se comprar as (poucas) coisas sem precisar cair no golpe do caixa rápido ou pagar penitência em um dos (apenas) três caixas que funcionam em pleno horário de pico.

E lá está um dos jovens funcionários. Aquele eu já conheço de vista. Quando bate às três da tarde ele começa a atender de pé. Usa um troço daqueles pra ajeitar as costas por cima da farda e, mesmo com a cara de quem esteve recentemente numa guerra, consegue manter um bom humor enquanto atende clientes também cansados, sobrecarregados do fardo do capitalismo e que vêem seus esforços sumindo diante de três ou quatro sacolas que voltarão naquele esquema do copo meio vazio pra casa.

O jovem mantém seu bom humor. Não deixa de presentear a todos com um boa tarde sincero. Está tão no automático que já digita sem olhar para as teclas. Que é que se deve passar na mente de um jovem com menos de 25 anos que está, provavelmente, em seu primeiro emprego, trabalhando praticamente de domingo à domingo?

Certamente não tem praia essa hora. Não tem praia nem onda. Tem nem metrô. No domingo é, no máximo, uma cerveja gelada, enquanto se espera pelo ônibus numa Conde da Boa Vista deserta com a companhia do medo de ser assaltado. Mas isso não é agora. Deixa isso pra quando ele largar, lá pras seis e meia. Agora ele se concentra nas mesmas mercadorias que passam voando pela sua cara, algumas talvez que estejam em falta em sua despensa ou geladeira.

Mas lá está ele. Incólume. Verdadeiro exemplo de qualquer coisa que seja. Empreendedor, futuro do Brasil, dono de seu próprio nariz, futuro dono de alguma coisa. Esse veneno quase não funciona. Melhor olhar para o relógio, discretamente, pra não criar animosidade nem chamar atenção do supervisor, que era talvez seu amigo, antes de subir de cargo.

Mas tudo tem um bálsamo. Um combustível. Um motivo ou um momento pra sorrir. Estou na fila. Três pessoas na minha frente. Dá para se contar o tempo que cada atendimento vai durar. Sei que ele está fazendo isso nesse exato momento. O escravo também tem seu direito de sorrir. Uma senhorinha aposentada com meio carrinho, basicamente de frutas, um casal indo, certamente para continuar com a festinha e eu, com meia dúzia de pacote de biscoito para o lanche das crianças, uma bandeja de ovo e dois ou três pacotes de bolacha.

A coroa não leva nem dez minutos para ser atendida. Levou consigo aquele boa tarde mesmo que, aparentemente, não gostou muito. Não se tem lá muita coisa para se chamar de bom num domingo fim de tarde. Na minha frente o casal. Roupa de praia, cara de bronze depois de um vôlei e dois mergulhos animados. Parecendo cosplay de comercial de banco ou de remédio nos anos 90, lembra? Do nada, o cara abre a boca.

- Qual a forma de pagamento, moço?

O cara não me esconde a origem. É gringo. No carrinho, três pedaços generosos de boa carne, provavelmente para um churrasco, três caixas da melhor cerveja, dois potes de sorvete e um pacote de amendoim provavelmente para comer no caminho.

- É no débito.

Saca aquele cartão verde com a cara de um personagem também gringo no meio, sabe? A moça, uma galeguinha com uma tatuagem de sereia no braço, o abraça. Aquele beijo carinhoso no pescoço do rapaz e saem sorrindo. O moço do caixa não se aguenta e, depois de receber um não precisa me dar a via, abre um sorriso contagia a todos que presenciaram aquela rápida e pequena cena: é no débito, viu? Certa ela! E eu vou pra casa rindo meu pedaço de caminho, para aproveitar o meu resto de domingo.


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