Não iludam as crianças (com vírgula, sem vergonha e sem virtude)
Acordou decidido. Botou a farda da firma, pegou um balde, pincel grande e tinta e foi para o meio da rua enfeitar as ruas com as cores e a bandeira da seleção. Meu vizinho. Chegou todo mundo. Apareceram sua esposa e mais dois meninos. Bandeira, Hexa, taça, chuteira. . . Tinha de tudo.
Pleno feriado mas ele, estranhamente, ostentava sua farda de serviço. Não queria dar azar para a seleção de modo nenhum, ainda mais após noticiaram que o Menino Ney provavelmente talvez estivesse liberado para calçar uma chuteira e fazer umas selfies para alimentar os perfis dos patrocinadores.
Meu vizinho era só alegria. Depois do presidente dele ter tentado destruir uma tornozeleira eletrônica, uma boa notícia cairia bem.
Saio para a padaria e vejo meu vizinho a lá Tom Hanks naquele filme que fez todo mundo chorar com a história do pior vizinho do mundo. E o meu vizinho tá lá. Agachado com o pincel na mão, quase soluçando enquanto escrevia algo como rumo ao Hexa. Tento não rir.
Outro dia conversava com os amigos sobre as lembranças da Copa de 2014. Dentro de casa, e aquele vexame do 7X1. Aí alguém recorda que tinha uns oito anos na ocasião, que chorou foi muito é que tinha ficado o trauma da Copa.
Não podemos rir dos choros alheios, mesmo que seja por um bando de jogadores milionários e que não sabem nem cantar o hino nacional. O Brasil enfrenta a Escócia no último jogo do grupo. Caso passe, deve apanhar vergonhosamente. O sonho do Hexa, inevitavelmente, será adiado mais uma vez.
Não tem ninguém mais besta. Essa é a frase que melhor define esse mundial da FIFA. A seleção mais fraca tem, no mínimo, 5 jogadores de alguma dessas ligas especializadas em lavar dinheiro aos montes. Já o Brasil, não vai bem. Dentro e fora do campo.
Besta mesmo só o meu vizinho, que votou no Bolsonaro jurando que ele era honesto e esqueceu de lavar a farda para o outro dia para garantir a mandinga pra seleção. Vai dar certo? Por hoje talvez. Aí vem a chuva, acaba com os desenhos esforçados na calçada. Meio triste. Não é bom rir assim dos coleguinhas.
*Em minha defesa, essa crônica foi escrita uma semana antes do jogo Brasil X Noruega



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