Fuleragem...
Era perto do Natal e Daniel ia fazer aquela feira, aquela festa, aquela feijoada com tudo que ele (achava) que tinha de direito. E ele era bem exigente nesse quesito. Os dois filhos de férias, ele e a mulher de recesso. Dia 19 de dezembro e ele compraria os ingredientes, aquilo que estava faltando na dispensa, as hortaliças, os produtos de limpeza, a carne, a cerveja, o chocolate dos meninos e uns panos de prato que tavam faltando.
Listinha alinhada. Tudo esquadrinhado. Fazer uma boa feira de fim de ano é algo que muita gente não conhece, não valoriza, não faz sequer ideia do que se trata. Toda a movimentação passaria dos mil reais, sem dúvida. Mas o sorriso tá estampado na cara de quem passou aquele ano inteiro matando leões, tigres, jacarés e engolindo alguns sapos pra balancear a dieta e não esquecer que quem voa é Peter Pan. “Deus é bom o tempo inteiro, mas às vezes se esquece um pouco da gente”, dizia o pai de Daniel sempre.
Oitocentos reais ali eram dele. A mulher chegou junto com mais seiscentos. E ainda teria mais presentinhos, os 300 de Esparta para segurar a onda até o dia dois, dia cinco de janeiro, onde a família estaria inteira nos braços do mar, aproveitando umas boas férias na casa de praia que sogrão costumava alugar lá pelas bandas de Gaibu.
Ele gostava do sogrão? Claro que não. Apreciava muito menos os porres de seus dois cunhados, mas um pouco de paciência e exercício de empatia era bom, especialmente se tratando daqueles quinze dias sem precisar botar a mão na carteira pra nada, além do fato de sua sogra ser simplesmente dona de um restaurante onde não cozinhava, tirando sua ferrugem exatamente naqueles de ouro. Aquilo para ele era o paraíso.
O sogro era orgulhoso demais para pedir qualquer coisa para alguém. Empreiteiro, era falado na boca miúda pelas ruas de Custódia, onde residiam, que tanto os negócios quanto o casamento não iam nada bem, mas, na frente dos outros era outra coisa. Seu Joel gastava tudo que tinha e o que não tinha para se mostrar superior, bancando tudo, do sorvete das crianças na beira da praia, ao cinema dos filhos, dois parasitas crescidinhos, com suas namoradas. Maria Clara não gostava muito da posição do marido em relação ao pai, mas não dava para fazer nada.
A feira de natal/réveillon/ano novo era uma espécie de desforra, vingança e oferenda aos bons ventos daquele esforçado professor. Fez a feira sozinho. Comprou cada item presente na lista milimetricamente escrita por Maria Clara. Não acrescentou nem tirou nada. Aquela lista era a perfeição perfeita. A sua mão era guiada. Ele só precisava colocar força no carrinho. Quatro pacotes de azeitonas (sem caroço), dois pacotes de champignons, aspargos, um frasco de azeite de oliva extra virgem, presunto, queijo prato, coalho, linguiça toscana, quatro cabeças de alho, berinjela, massa para pastelzinho, três caixas de cerveja, duas cidras e um novo coador de café que o atual já estava mais do que gasto. Coisas pequenas, coisas simples, mas coisas que ele simplesmente só comia duas vezes no ano.
Um carrinho e meio. Quase que se tornava o centro das atenções naquela fila. Não esqueça do Peter Pan, viu? Pagou metade no crédito, metade no débito, dois cartões diferentes que é pra evitar surpresas. Saída do mercadinho. Só alegria. Dois sacos de amendoim quase caindo da sacola meio que o convidavam para abrir uma cerveja assim que chegasse em casa. E era isso que ele faria. Era um sábado, quase quatro horas da tarde.
Senhora idosa de seu lado. Amenidades enquanto solicita o UBER. Tem um moleque com um carro de mão ali do lado. Dez reais o frete, provavelmente. Mas ele não quer andar no sol naquela tarde. Um pacote de amendoim é verde e o outro é amarelo. Verde com aquela cobertura de cebola e salsa, sabe? Pede o carro. Sete e cinquenta apenas. A solicitação demora um pouco. Dez minutos. Sem dúvida é devido ao horário, ao dia, a todas as movimentações que são feitas em torno daquele fim de ano. Nove minutos. Enquanto o carro não vem, mais amenidades com a simpática senhora que também espera seu carro.
Será que vai chover hoje? O clima está tão estranho, não está? A gente sai de casa de manhã, no maior sol do mundo e, do nada, aparece aquela baita chuvarada. Ele só balança a cabeça assertivamente. Na verdade está imaginando qual filme vai escolher para ver com aqueles amendoins. O carro chega. Não é o dele. É o da coroa. E é claro que ela tem bem menos coisas que ele.
-Vai pra onde, bicho?
-Do outro lado dessa rua alí. Sabe onde fica aqueles prédios ali tudo coloridinho? É alí.
-Sei onde é, bicho. Levo pra tu no pirulito. E depois venho pegar as suas compras, dona Maria. Ela é minha cliente. Toda vez eu venho trazer e levar ela pra ela poder fazer as comprinhas dela. Deixe ela com as comprinhas dela, viu? E solta aquele sorriso.
-A senhora tem certeza que não se preocupa em esperar ele voltar?
-Ligo não meu filho.
Cancelou a corrida. Cancelei a sua também, minha querida. Precisa não. Aqui é no esquema desde sempre. É minha cliente antiga. É só carinho. Essa aí me viu pequenininho. Tudo certo. Abre o porta mala enquanto o motorista, solícito, fuma um cigarro para baixar o calor daquele sábado corrido. As compras são de dar orgulho a qualquer um. Preenchem os bancos traseiros e completam bem o porta-malas do carro. Daniel procura bater o porta malas com muito cuidado, enquanto olha para a senhora, muito solícita em aceitar esperar com as suas compras. Daniel olha em volta orgulhoso de si, de seu trabalho e do murro medonho que ele tem que dar para tentar ser feliz nessa sociedade capitalista. Daniel vê seu sorriso se espatifar no chão enquanto o carro arranca cantando pneu justamente na hora em que ele ia se virar para entrar no carro em direção ao filme com amendoim com cobertura sabor de salsa e cebola.
"Deus é bom o tempo todo... A gente só não pode contar com ele pra muita coisa”. Era exatamente essa a frase que seu pai vivia dizendo desde a sua infância. Daniel sai correndo atrás do carro, sentindo ainda a maçaneta entre os seus dedos. Corre e tropeça. Tora a sandália no esforço. Bem que Maria Clara vive reclamando desse negócio de usar chinelo de dedo fora de casa. O carro se afasta. Ele nem tá vendo mais o bendito. No tropeço pisa na lama da rua. Esgoto. Justamente no meio fio. Rala o joelho na façanha. Volta para o mercadinho. Dá tempo de tentar pegar a placa do veículo, o apelido do motorista, o contato dele com a senhorinha simpática que já não está mais lá, que parece que sumiu, que parece que foi uma aparição, coisa do tipo Mestre dos Magos. Entra no mercado desesperado. Se alguém viu, não lembra. A descrição de uma senhora baixinha e simpática em dia de compras de fim de ano em um sábado de tarde não é bem uma descrição que ajude muito. Liga pra polícia. Espera bem uns quarenta minutos. Nada. Quando os oficiais vem parece mais que riem da cara da vítima do que outra coisa. Volta pra casa se arrastando como um cadáver de filme B de zumbi. Aquele fim de ano foi mais de raiva que de outra coisa. Pior ainda que isso realmente aconteceu. Chegou em casa sem o amendoim e perdeu toda a vontade de assistir qualquer coisa na televisão. “Deus é bom o tempo todo, mas o diabo, às vezes, faz cada presepada com a nossa cara que eu não quero nem te contar, visse?”.



Comentários
Postar um comentário