Precisamos conversar...

 


Foi essa a mensagem que ele recebeu. Assim simples, assim seco. Direto feito murro no olho, como do o outro. Dessa vez ele não fazia bem ideia do que se tratava. Na última vez em que recebeu essa mesma mensagem o conteúdo era outro completamente diferente. Anos atrás, ainda jovens, recém casados, ela liga pra ele depois dele não responder uma mensagem idêntica. Ele já sabia. Ela estava grávida e ele muito feliz, apesar de assustado. 

Vinte e dois anos apenas e um mundo inteiro pela frente para conquistar, planos para construir, dragões para transformar em peças de teatro e de tapete. Nada disso. Agora era mudar de rumo e isso fariam juntos. Esse é o trato e o combinado. E o combinado veio. Religiosamente nove meses depois. Um menino a qual colocaram o nome de Arthur. Nome de rei. Nome de príncipe. Nome de artista de filme. Não importava. O nome era uma promessa feita e, sobre essas coisas, não tem pra quê se discutir.

Vinte anos depois e o filme era outro. Gasto pelo tempo, como qualquer coisa que se desgasta com o passar das marés, e ele não fazia ideia do que se tratava. Ele não respondeu a mensagem. Depois do almoço notou mais duas ligações. Não retornou. O sonho da casa própria precisa ser mantido e preservado pelo sonho do primeiro emprego, aquele que fica velho antes de conhecer o tal do sonho da primeira promoção e esse, ninguém diz, faculdade alguma nos ensina, demora um pouco pra vir.

Gerente de produção. Fazia outras coisas também. Coisas que talvez soassem como invasivas, desvio de função, assédio moral até, mas aquilo tudo fazia parte do jogo, como daquela vez que quase foi demitido por não querer encobrir certa movimentação de mercadorias promovida por três agora ex-amigos. Aquela movimentação não era promocional coisa nenhuma. E nem era moralista, babão ou algo do tipo. Só não concordaria com aquilo. 

Descobriu. Recebeu proposta, recusou e passou três meses sendo perseguido por todos os lados. Até uma falsa tentativa de assédio tentaram jogar pra ele. Ok. Recebeu advertência, teve salário reduzido, férias e folgas descontadas mas não cedeu. Descoberto o esquema e os ex-amigos foram presos e ele finalmente promovido.

Teve que sair da loja em questão. Questão de segurança. Era preciso evitar qualquer tipo de retaliação. Dito e feito. Dias depois dois estranhos foram vistos arrodeando a loja, caçando informações como ensinam os filmes do James Bond. Os bons e os ruins. Bom pra ele. Após a tão sonhada promoção descobriu o outro lado da moeda. Ruim pra ele. 

A nova loja ficava em outro município. Quase duas horas de ônibus para chegar, uma e meia para voltar, quando não era dia de volta às aulas, quando não tinha jogo do Estadual, quando não era sexta feira. Pior. Descobriu que não iria, definitivamente, fazer qualquer mal a ele. 

O dono da loja usava o CNPJ, o prestígio, os carros da empresa e os galpões de estoque para o ilícito. Era mais que roupas e sapatos que estavam vendendo. Nada fez. Camarão que dorme a onda leva. As costas colecionavam uma dor crônica e a ideia de fazer uma segunda graduação lhe parecia agora uma coisa muito estúpida. No meio daquela garotada não se sentia bem. 

Era como assistir uma série de seu tempo reprisada. Não tinha mais cabeça pra quilo mas, como era a empresa quem pagava, não tinha nem como não dizer que não queria. Menos mal que era semi presencial. A turma até que era boa com ele. E como era apenas uma vez por semana, dava tranquilamente para tomar uma cerveja sempre que a coisa apertava depois da aula. Chamavam até a professora que, como era de se esperar, não ia.

Aí chega essa mensagem estranha em seu telefone. Não respondeu nem atendeu por maldade. Estava realmente muito ocupado. Era dia de fechamento de caixa, pagamento e dispensa de funcionários. Na hora do cafezinho da tarde foi que a coisa começou a parecer estranha. Tinha um áudio também. Pediu para transcrever.

 Não costumava ouvir mensagem de áudio. Sabe escrever? Faça. Ninguém deveria ser obrigado a ouvir mensagens gravadas quando se vive numa ambiente onde o som das buzinas, dos canos de escape, das moto ubers, das máquinas furando o concreto ou dos tiroteios abafam o comunicar dos pássaros que a gente já nem se lembra mais.

Tá lá. A esposa perguntava se ele estava bem. Dizia que ela não estava. Que horas que ele voltava pra casa e se tinha almoçado direitinho. A pergunta do almoço era de praxe. Fora da rotina era todo o resto. Largou de dezessete e trinta. E escrevo assim, desse jeito, para você ter uma noção do quanto isso representava. 

Nada de números. Os números são feia e calculistas. Desumanos até. E, pra ser bem exato, ele largara pontualmente às dezessete e trinta e sete. Levou aproximadamente sete minutos da loja até a padaria, comprou doze pães e um pacote de café, para devolver o que tinha pego de sua casa, da mesma marca, só topava daquele. 

Da padaria para a parada de ônibus foram cerca de três minutos. Relativamente perto. Sacou os fones de ouvido da bolsa e seguiu. Parecia que alguma coisa teria dado certo. Estava voltando pra casa sentado em plena quinta feira, véspera do jogo do Brasil com Haiti.

No meio do caminho, ruas, casas, lojas pessoas não falavam de outra coisa: a possibilidade concreta ou não do Neymar jogar. Neymar. Que havia conquistado o espaço e o prêmio de ser mais falado e comentado que a própria seleção naqueles dias em que todo mundo jogava muita bola e toda população brasileira assitia. É realmente muito ruim quando se percebe que não é mais indispensável em alguma coisa, qualquer coisa que se fazia. Ele não. Olhava para a paisagem que lhe incomodava todos os dias, de manhã cedo e de tarde: aquela beleza de praia.

Chegou em casa de seis e meia da noite. Quebradinho feito arroz de terceira. Subiu a escada para o primeiro andar como de costume mas reclamado o desgaste. Sempre achou um absurdo ter que esperar até dez minutos pelo elevador velho quando podia apenas subir um lance de escada e ir direto pra casa. Foi isso que fez.

A esposa, dona de uma marca até certa forma média de salão de beleza não estava grávida. Isso era certeza. Talvez fosse algum outro problema. Chegou a lembrar das dificuldades que passaram, coisa de cinco ou seis anos atrás, quando ela precisou retirar um dos seios, mas aquilo fazia parte do passado. Era outra coisa. Tomada pelo remorso e pela culpa a esposa não conseguia mais esconder um pequeno caso, ocorrido meses antes e que aparentemente continuara até dias antes.

Não quis saber. Tomado por um estranho ar de frieza interrompeu uma possível tentativa de explicar a motivação, coisa que vem junto no pacote de remorsos e ideias costuradas quando se pretende salvar alguma coisa que está condenada. Não quis saber. Sem levantar a voz ou demonstrar praticamente emoção alguma pediu para que se parasse a apresentação. 

Só queria alguns dias para arrumar um novo endereço e pegar as coisas. Procuraria um advogado para tratar do divórcio e só. Não achava que valeria a pena se desgastar. Não ali. Ela fica até surpresa. Quase sem ação. Tenta se aproximar, fazer alguma coisa. Parece que as desculpas e as palavras não vão surtir muito efeito para os dois. 

Era quase como entrar numa rua errada e descobrir que ela não tinha uma saída no fim. Interrompe outra vez. Pede desculpas. Uma espécie de silêncio grudento, pegajoso toma conta da sala. O ar parece pesado e denso. Ele liga a TV no jornal. O jogo é só de nove e meia. Vinte e uma e trinta. Vai tomar um banho, come alguma coisa. Ela entra no quarto e por lá fica. Ele dorme no sofá mesmo. Apaga. 

As duas latinhas de cerveja que ele havia comprado para assistirem ao jogo juntos parecem ter ajudado na preparação. Assistiu o jogo no automático. Não liga. Faz muito tempo que não torcia para a seleção. Aquele ar pesado e tenso ficou por ali. Chegou a durar três dias. Alugou uma casa, colocou todas as duas coisas dentro de inúmeras caixas e as levou no terceiro dia. Depois falaria com o filho. Não era pra tanto. Homem feito, tinha seus próprios problemas acumulados para resolver. Filho é isso: a gente cria eles para o mundo e não para nós.

 No novo apartamento, poucas coisas por enquanto. O colchão de solteiro ficaria no chão, por enquanto. Nos próximos dias a cama nova, comprada em promoção seria entregue.

Não tinha muita coisa para se fazer. Quem já passou por isso entende, grau maior ou menor, a delicadeza do movimento do ponteiro do relógio nessas horas. Que fazer? É um misto de nojo, raiva e aversão. O nojo é a pior coisa. Como um cheiro forte e muito desagradável que parece sair daquele outro corpo que agora lhe é estranho. Não dá para dividir se que os lençóis, olhar nos olhos.

Antes de ir uma troca de conversa, meio que protocolar. A esposa pergunta se podem conversar. Ele apenas balança a cabeça negativamente. Ficou bem mal nos dias seguintes. Ambos é claro. Ele lembrava uma música do Djavan que, estranhamente tratava de separação. Já não somos dois, e seguia. Assim como os dias foram seguindo como segue a vida. Sem ficção bem escrita, sem bons atores para garantir a melhor cena, sem romantismo para, no final, dar uma jeitinho de última hora. Nada disso. Tem coisa que simplesmente acontece e termina assim.


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