Molduras
Parei para reparar outro dia que não sabia o significado da palavra retrato. E ainda não sei. Prometo a mim mesmo que vou pesquisar na internet, assim que terminar de escrever esse texto. Mas sei que talvez não faça. Impressionante as maravilhas e facilidades da internet. T.E.C.N.O.L.O.G.I.A. Coisa que deixa a gente bestinha e sem argumento.
A questão da foto veio depois de um filme japonês que me incomodou bastante. O nome? Não vou dizer. É o meu protesto contra essa facilidade artificial que deixou a gente bem idiota e preguiçoso. Sim. A gente não precisa mais raciocinar, se tem uma “tecnologia” que faz isso pra gente. E o filme meio que fazia isso. Não era uma propaganda sobre a nostalgia, essa coisa de que o mundo analógico é melhor e mais saudável que nossos dias. Não se trata disso. Aliás, o problema não é a tecnologia e sim seu uso.
Um advogado tem que preparar uma petição qualquer. Gigas de dados e documentos, dentro e fora de seus domínios. Nada mais justo ter uma ferramenta que contribua com a pesquisa, ache coisas, responda perguntas. Isso não quer dizer que uma IA deva substituir um advogado para uma firma qualquer lucrar. É a mesma coisa que um professor em sua fatídica missão de criar provas, questões e maneiras de avaliar. E olha que eu conheço um professor que aplica uma prova diferente para cada aluno de sua turma, seja essa turma uma terceiro período, com seus mais de vinte e uns agregados ou um sétimo período, vazio de pessoas e recheado de arrogância e futuros concurseiros desempregados.
Parei para ver um filme que pairava em minha lista e sou surpreendido. Nada acontece no filme. E o filme é sobre isso. Sobre quebra de expectativas. Sobre olhar para coisas menores da vida, não como uma pregação desajustada ou uma crítica pela crítica. O filme, nada pretensioso, aperta alguns parafusos para nós lembrar que ainda somos humanos e o que nos torna isso.
Outra coisa que me veio à cabeça, das dúvidas que sem dúvida não vou parar para analisar daqui cinco minutos. A diferença determinante agora entre retrato e fotografia e aquilo que nos torna humanos, coisa que me voltou na mente após lembrar do filme que vi tem alguns meses simplesmente. Vejam como são as coisas. Eu estava esses dias, oito anos recém completados da partida de minha sogrinha, lembrando que eu simplesmente não tenho nenhuma foto com ela. Não que eu lembre. E veja como são as coisas: eu chamei partida no lugar de morte. De despedida. Soa mais suave. Menos doloroso. Escolhi esse termo certamente pensando em quem iria ler o mesmo. Sim. Estranho né? Eu escolhi milimetricamente um termo pensando em você que está me lendo exatamente agora. Um leitor hipotético. E eu pensando que talvez tenha conseguido te fazer cair nessa isca do filme, uma simples estratégia narrativa que tem por trás uma intenção: provocar em quem lê uma reflexão.
Interessante? Coisa que a IA talvez (ainda) não consiga fazer ainda, como repetir um termo com finalidade estética? E se eu te der os parabéns por ter lido até aqui? Recompensas da leitura? Nada disso! As pesquisas indicam exatamente isso. Que, a depender do tamanho do texto, talvez ele não seja lido. Pior: há, por outro lado, um novo movimento onde as pessoas têm valorizado espaços como esses e textos neste formato. Ironia, não?
Mas no fim, o ato de escrever não tem, não é e nem precisa ser envolto, embebido, tomado em doces, embriagantes ou entorpecentes mistérios. Escrever talvez seja apenas um pai, exatamente no dia do aniversário de sua filha mais nova, lembrando que sua sogra, que não tinha uma foto junta, se comportaria nesse dia ao lado de sua netinha. Escrever talvez e também seja sobre isso. Sobre a vida e os mistérios escondidos nas coisas pequenas.



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