Felicidade




Passou um café naquela tarde. Tinha feito um almoço sem graça, como tinham sido todas aquelas últimas refeições sem graça naquelas últimas duas semanas. Não queria estragar o café. Tá tudo tão caro ultimamente. Colocou água para duas xícaras. Milimetricamente. Uma coisa incomodava sua mente naquela manhã, por isso adiava ter que sair novamente pra rua. Tinha comprado as verduras, passado na padaria, na casa lotérica e deixado tudo organizado, tudo endireitado. Tudo em seu lugar. A casa, vazia, arrumada como nunca antes visto. Parecia que, de agora em diante, teria toda a eternidade para deixar a casa vazia arrumada. Impecável. Tão limpa que qualquer inseto que ousasse entrar por aquela janela morreria de tanto asseio e reparo. 

Água quente, café feito. Duas colheres. Uma cheia e outra meio rasa. Era a primeira vez que passava um café só para ela. Tomou o café com uma fatia de bolo. Deixou tudo na pia, mas aquilo lhe indignou. Deixou inquieta. Não combinava com o asseio do local. Agora faz seis meses que seu filho único tinha saído de casa. Depois de tentar três vezes, passara no curso de engenharia. A mãe só não imaginava que tudo seria tão rápido como foi. Passado no vestibular, feito a matrícula e o menino tinha se encaminhado para morar na residência universitária. Tentou acreditar naquela conversa de que estaria em casa sempre que pudesse. Conversa pura! Mesmo assim, sabia que o menino daria conta. Estava se esforçando ao máximo. Não estava ausente, mesmo nos dois feriados e três imprensados que ele tinha ficado para adiantar um pouco os assuntos. 

Sabia que o filho não estava mentindo. Tinha desenvolvido uma amizade com o filho único de fazer inveja nas amigas. Era esperado. Não faria sentido algum ter um único filho e não se tornar pelo menos amiga dele. Também completavam duas semanas do velório de seu marido. Talvez por isso o silêncio? O vazio? Os dois casaram muito cedo, diziam alguns amigos mais próximos e a sua mãe. Se conheceram numa fila de cinema. Ele levando uma turma de alunos da escola, ela acompanhando uma amiga que acabara de descobrir que a namorada lhe traía com uma outra ex-melhor amiga agora. Trocaram olhares e sorrisos, telefones e saíram naquele mesmo dia para tomar uma cerveja bem gelada. Isso ela não fazia questão de esquecer. Foi difícil engravidar. Aquele sonho dos dois tardou em chegar. Tu sempre foi uma criança teimosa, mesmo antes de nascer, dizia o pai ao recordar o processo do pré-Natal ao período na incubadora. 38 anos casados e ele tinha morrido de forma até besta. Atropelado por uma bicicleta após uma caminhada matinal. Reclamou de algumas dores onde levou a batida. Nada demais. Tomou um banho, foi para o trabalho, até o terrível telefonema informar tamanho infortúnio. Chorou tudo que podia e um pouco mais. Passados os dias, amigos e familiares foram soltando suas mãos devagarinho. Aquilo era inevitável. A vida tinha que continuar de toda forma. Ela também.  

Naquele dia tinha levantado cedo. Feito uma faxina em toda a casa, separado diversas roupas antigas, enfeites de geladeira, panos de prato velhos, roupas do marido para doação e organizado toda a vida. Estava finalmente pronta. Apenas uma coisa tinha lhe deixado incomodada. Resolveu pôr um ponto final naquela inquietação antes que ela virasse uma agonia e lhe tirasse o sono. Pela manhã, passado pelo mercadinho, um produto lhe chamou atenção. Voltou, preparou o produto para selar aquele momento e iniciar um novo. Um desinfetante, limpador perfumado, ou coisa que o valha, tinha prendido sua atenção. Uma cor azul, numa embalagem que parecia dançar, com um nome que ela sentiu que precisava comprar: alegria. Comprou o produto, diluiu num balde comprado só para aquele ritual e passou em toda a sala, nos quartos, terraço, banheiro e cozinha. A vida tinha. Iria continuar.


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