Empreender



Esses dias levei chuva. Peguei uma gripe forte, fiquei com dor no ouvido, febre, paciência zero pra barulho. Minha vizinha, pra variar, bota um brega funk no talo em pleno sábado de manhã. Bem que ela podia ser adventista, nera? Nada contra passar o final de semana ouvindo ao Prisma Brasil ou a Alessandra Samadello. Vão me questionar se eu seja simpático a igreja que passou pano pro pastor que fez uma rasgada homenagem ao hitler. Não direi nada. Dor de cabeça.

Dor de cabeça exige que a gente vá ao médico, e a gente é cobrado, só e nessas horas, de cuidar da saúde. Só nas últimas. E cuidar da saúde lembra de cuidar do coração. Mas, como cuidar da saúde sendo chamado de empreendedor, de dono de seu destino, quando na verdade o trabalhador se encontra na jornada 7x0?

Indo ao trabalho, em plena segunda feira, trânsito maluco e me deparo com uma cena que definitivamente acabou minha semana inteira. E olha que está os falando de um 1 de junho. Um homem negro, provavelmente no alto de seus 50 anos, parado em frente de uma farmácia. Pela sua roupa dá pra notar que ele é evangélico. Dá até pra dizer qual igreja ele frequenta. 

Camisa social de manga curta, calça social, percata, cabelo bem cortado e uma caixa de isopor do Ifood milimetricamente amarrada ao bagageiro de sua aparentemente Monark Barra circular, daquela que sei pai tinha, caso você esteja, assim como eu, na casa dos 30.

Aquilo me deu um misto de revolta, raiva, tristeza, pena e nostalgia. Em plena semana de comemoração quando nossa classe conquista a importante derrubada na escala 6X1, aquela Vitória que é feito vela acesa quando falta luz na rua inteira e temos que torcer pra luz voltar logo. O senhor praticamente de joelhos, com as mãos meladas de gracha cutucando a corrente daquele que talvez seja seu único meio de ganha-pão.

Aquela caixa não é nada leve. Lembro meu pai, em plenos anos 90, tendo que sair de casa com uma caixa de picolé para vender por aí. Se sorte, ele voltava com alguma coisa pra hora do almoço. Um pacote de fubá, alguns ovos na sacola, dois tomates e uma cebola, ou uma carne de lata daquelas que a gente achava saboroso mas não sabia bem do que era feito.

Nostalgia de rico é que é muito bonito. Minha mãe me dava o dinheirinho para o meu lanche e eu guardava, deixava separado para comprar meu gibizinho do Homem-Aranha lá na banquinha. Eita como eu era esforçadinho! Hoje eu defendo que temos que ensinar a pescar, não dá o peixe! E eu mandando esse bando de filho da puta se lascar.

O senhor tá ali, agoniado em pleno segunda-feira. Quem sabe já atrasou a entrega. E como é que fica? É isso que o Luciano Huk acha bonito? Amanhã o moleque que hoje soltava pipa arruma qualquer coisa para transformar em arma e fere um playboy desses em um carro que papai me deu de presente por eu passar na faculdade de medicina por esforço meu. Aí toda imprensa cai matando: tem que reduzir a maioridade penal! A culpa é do bolsa família! Bandido bom - se não for banqueiro - é bandido morto e por aí vai.

Quem não vai é aquele senhor na frente daaquela farmácia ali na esquina. Ficou na minha memória e corri aqui para registrar. Será lido por 12 pessoas, receberá dois ou três likes e entrará no hall das muitas mazelas que o capitalismo enfeita ou transforma em senso comum, não importa o dia da semana ou se é mês da Carnaval, São João ou dia de ação de graças.


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