A primeira fake news de um homem...
Antes de existirem, como bem define um amigo meu, aparelhos de televisão na palma de nossas mãos, éramos obrigados a nos submeter a certos tipos de situações de ausências e dificuldades que, com todo respeito aos saudosos nostálgicos de plantão, não trazem saudade nenhuma. Podem muito bem continuar onde ficaram.
Antes dos smartphones, aplicativos dos mais diversos, streaming usando lucro de música para financiar genocídio, tínhamos que caçar onde escutar música, se informar ou mesmo assistir um filme qualquer que fosse. Qualquer dia desses eu conto a minha história com o filme Um Drink no Inferno. Numa locadora de VHS perto de casa, existia uma lenda que tinha esse filme.
Apenas e somente ali. Talvez pelo fato de eu ser de menor, a tal da fita era negada. Os funcionários da loja juravam por suas almas que ali não existia aquele filme de modo algum. Demorei anos para assistir essa belezura. E aluguei a película exatamente na referida locadora, em sua última semana de funcionamento, promovida pela onda de fechamento desses espaços com o advento da Internet.
Música nova era no rádio. As páginas amarelas de uma determinada revista podiam derrubar reputações inteiras e tínhamos que esperar uma semana por um novo episódio de uma série qualquer, que era ruminada nas rodas de conversas diárias. Nesse ponto preciso admitir que certas coisas das antigas fazem falta.
Essa escassez de pressa dava, de certo modo, algum status de lenda para determinadas coisas. Nem todo mundo era crítico de cinema como hoje, nem todas as pessoas se auto intitulavam formadora de opinião e, definitivamente, não precisávamos ter a bendita obrigação de ter que saber de tudo.
Jessé era meu primo, um dos amigos mais próximos e ainda estudávamos juntos, além de participar do grupo de teatro da escola. Que ele não leia esse texto. Talvez ria. Talvez não goste. ‘Peu’, como é conhecido, é daquele tipo de pessoa que é engraçada, exatamente por não fazer o esforço pra isso. Dizia categoricamente que não gostava de Pagode. Gostava de Raça Negra. Eram coisas bem diferentes. Escutava Legião Urbana, gostava de Racionais, SPC, Edson Gomes… mas só era fã do Raça.
Da banda tinha toda a coleção de discos. Conhecia as músicas não pelo título, mas pelo número da faixa e da cor do disco. Essa é a 3, do Preto. Coloca aí, bicho, a 7, do vermelho. E a gente entendia aquilo que ele dizia. Nesse tempo tínhamos CDs. Era assim que escutávamos nossos ídolos. O mais velho da turma, trabalhando desde cedo, Jessé tinha sua coleção de discos, piratas e originais. Entre esses, um sempre nos chamou atenção e é dele que falaremos aqui.
"Neguita" é um sucesso do Elton John e era assim que a gente achava que se cantava. Nesse tempo não existia essa espécie de caçador de lacração. A maioria dos meus amigos gostavam do Renato Russo, Cazuza ou Ney Matogrosso. Ninguém discutia, se bem me lembro, a sexualidade de gênios como um Fred Mercury. Aí que vem a resenha: quando Jessé descobriu que o cantor de ‘Neguita’ se casou com um homem no início dos anos 2000 ficou muito decepcionado. Todo trabalhado no Pagode 90, o jovem ‘Peu’ pensava que a canção se tratava de uma negona daquelas que habitavam nossos sonhos juvenis em época de Globeleza.
Essa foi a primeira fake news desse jovem. E me lembro dele desapontado com seu CD original jogado fora depois de descobrir que o Elton não era hétero suficientemente para os padrões noventistas do Pagode brasileiro. Uma resenha só. O mais engraçado é ouvir, em pleno ano de 2026, encontrar gente chamando o cantor de comunista, lacrador e etc. Anos 90/2000 isso nem existia. Mas não deixa de ser engraçado hoje.



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