Lembrar de escrever...
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“E foi assim que a propriedade privada acabou com o comunismo primitivo”...
Lá em casa não se tinha essa divisão entre nós, três irmãos no melhor estilo escadinha. Minha irmã, mais velha, tinha certas regalias, aquelas que eram possíveis segundo nossas possibilidades nos anos noventa, divididos entre TVs Colossos, Catelos Rá-Tim-Buns, desemprego e a fome.
Nós três dividíamos uma cama velha de casal, os brinquedos e as poucas roupas. Quando a coisa melhorou um pouco, ganhamos uma beliche para o quarto. De início a disputa era pra saber quem ficaria com a parte de cima, mas tudo se dissipou rapidamente. Logo se descobriu que dormir numa cama de casal sozinho, mesmo que velha, tinha lá suas vantagens. E você pode imaginar a dificuldade que era ter que dormir, três moleques, numa mesma cama. Disciplina, o pé de alguém na sua cara e aprender a dormir como um defunto.
A coisa mudou quando meu irmão mais velho começou a trabalhar. Conquistando seus trocados, era de se esperar que as coisas mudassem um pouco. O pivô da mudança foi uma camisa vermelha com a gola azul. Kelly, nossa sobrinha, indentificava aquela camisa como sendo do meu irmão. E criança não mente nem deixa passar nada.
O meu irmão mais velho tinha tudo para ser Juninho. Seu nome é o nome do nosso pai com um “L” na frente. Linaldo era naldinho ou Nal. Mas a Kelly, aprendendo ainda suas primeiras palavras, não conseguia chamar os apelidos. Ficou Tal. Ela também chamava ele, por pura zueira de Titia, mas essa já é uma outra história.
Bastava eu usar a camisa vermelha pra Kelly apontar e fazer a denúncia: Tal. Eu dizia que a camisa era minha e ela respondia na bucha: Tal. E o tal do amadurecimento e as vacas um pouco mais gordas começavam passar em nossa porta. Em pouco tempo meu irmão casaria, sairia de casa, eu seguiria o mesmo caminho e o nosso irmão mais novo ficaria, não com um, mais dois quartos pra chamar de seu.



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