Dúvida
Achou oitocentos reais na rua. Tinha que passar ao lado de um pequeno lixão (lixinho?) antes de chegar na padaria. Um pacote lhe chamou atenção. Transparente, dobradinho. Dois reais talvez? Na volta, nenhuma cerimônia. Botou o pacote no bolso, deixou a sacola de pão e se foi. De relance, uma espiada no pacote. Tinha a maior cara de dois reais.
Correria. Atravessa a rampa do metrô num suspiro só. Passou pela borboleta sem nem bem reparar quanto de saldo sobrou para aquelas próximas duas semanas. Dia vinte é agora o novo trinta.
Achou um lugar pra sentar na plataforma. Sozinho. Meteu a mão no bolso sem nenhuma esperança ou expectativa. Três cédulas de dois reais abraçavam três cédulas de cinquenta, seguidas por algumas de cem. Tudo novinha. Saídas do banco. Estalando, como diria o outro. Setecentos e três reais batidinhos.
Olhou para os lados, redobrou o dinheiro e devolveu para o bolso com todo o cuidado. Deixou um sorriso pra trás quando o metrô chegou, lotado como sempre, rangendo como nunca, em alguma feira da semana com a feira minguando em casa. Passou o dia inteiro ensaiando mentalmente as palavras para o testemunho no culto de mais tarde. Disseram: Deus proverá. E ele proveu.
Perdeu oitocentos reais na rua. Tinha que panhar o lixo naquele lado da padaria. O dono, chato pra um caralho, costumava ligar para o responsável para reclamar do serviço. Noite anterior tinha combinado com o agiota um adiantado para encaminhar as coisas na casa. A filha mais nova tinha voltado a morar com ele e a esposa, com o netinho pequeno de três meses. O pai do menino, não se sabia. Paradeiro desconhecido. A filha mais velha, essa ajuizada, tinha sido demitida novamente.
Era o terceiro emprego de merda que ela não se adaptava. Quatro e meia da manhã e o agiota pinta na garagem da empresa. Três cédulas de dois reais, três cédulas de cinquenta e algumas de cem. Tudo novinha. Tinindo. O nome dele era Robinson e ele detestava pegar em dinheiro amassado. Dava azar. Era a terceira vez que ele recorria a um agiota para ajudar a aliviar as coisas. Na TV a tal da PEC dos garis parecia que ia sair do papel. Até lá, altos bicos e dificuldades. Nada de novo no front.
Voltou pra casa depois de um dia de labuta e lamento. Se organizou e foi para a igreja colocar seu nome no caderninho de orações. E no fim do dia, num bar pouco badalado numa esquina qualquer, Deus e o Diabo, numa cena à lá o filme Constantine, sentam para dividir um litrão de Brahma e uma porção de fritas, para discutir quem é o responsável pelo situação.



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