Promessa

  


-Pai, o senhor trás pra mim aquele docinho que eu gosto, viu? Aquele lá em formato de ovo. Se não tiver, o senhor vai ter que buscar em outro canto, tá bom?

Aquela chuva desmoronando no Recife dias antes. Transtorno. Amigos que tiveram as casas invadidas pelas chuvas, hipocrisia dos poderosos, mentira dos governantes e medo na hora de dormir. Ano antes entrou água duas vezes na minha casa. Algo desesperador. Terrível. Pior ainda é ouvir de um amigo o sentimento de conformação com tudo isso.

- Eu já estou acostumado. Todo ano é isso. Não tem muito o que fazer, não. É levantar os móveis, torcer pra água parar e depois limpar tudo.

Muita raiva. Definitivamente não se escuta notícia alguma de rico preocupado com as chuvas invadindo suas casas, entrando pelo ralo, levando consigo os poucos sonhos, adquiridos com tanto esforço.

Em toda essa situação me admira a inocência e a produção de esperança das crianças. A menina na janela, feliz, dizendo pra mãe que a chuva estava indo embora. Indo embora nada. Mas ela acreditava. Ano passado, os vizinhos ajudando a subir os móveis e a bebê disfarçando o medo tendo como referência um semblante cansado de quem passou a madrugada de pé, com um rodo nas mãos, lutando quase que inutilmente contra a força das águas.

Esse ano, não. Ralo tapado, mureta na frente do apartamento e na entrada do hall e aquele pensamento de que nunca mais na vida a gente se muda para o térreo em lugar nenhum. Nem num deserto. Dias depois, passado o susto, vou ao mercado complementar a feira. Tudo caro. Os cabelos brancos parecem perpetuar uma preocupação que, chega em determinado momento da vida e parece fazer morada de vez. A lista de compras já está na cabeça. Sabe-se bem o que trazer.

Na ida, quase na entrada da mercado, mais chuva. Outro dia a rua no entorno daquele estabelecimento parecia um rio. Faço as compras com uma certa pressa. Agonia. Se continuar chovendo, dito e feito, vou levar mais chuva. Mas o medo não é de ficar doente. O medo agora é o visitante inesperado, aquele que mora com a gente.

Imagina quem mora perto de uma encosta? Imagina a agonia que deu quando começamos a receber aqueles alertas de perigo sem pé nem cabeça. Mandaram quem estivesse em perigo procurar abrigo. Abrigo onde? E lá vem as autoridades colocando a culpa de quem ficou sem casa em quem ficou sem casa. Como se as pessoas fossem morar no morro por achar bonito.

Lá vem a imprensa chamar tudo de fatalidade. Cada ano que passa a coisa fica pior. A gente manda mensagem para os parentes, familiares, amigos mais próximos. Procura oferecer apoio a quem precisa. Aos de baixo, só a solidariedade. Isso o povo trabalhador tem de sobra.

Na fila do caixa, contando mentalmente aquilo que vai passar no carrinho e se vai ser possível levar tudo. Sempre aquela cena na mente do filme o homem que copiava. Tudo certo. E aí vem a lembrança do pedido da pequena. Compro qualquer coisa. Um pacote de doce em formato de dentadura, de melancia ou uma caixa de chocolate para dividir com toda a família. Não lembro. Volto sorrindo pra casa. Um sorriso tímido, envergonhado, se sentindo meio culpado por estar numa situação um pouco melhor do que vários amigos. Mas é um sorriso. Respiro fundo. A criança, em sua inocência, sempre compartilha, divide, presenteia um pouco de esperança. E um céu azul se mostra em nossa frente. Calma pai. É só uma nuvem.


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