Eva
Quando pequena garota aprendeu a gostar de costurar roupas. Nem bem completados os dez anos e a menina Eva já desenhava os futuros vestidos que sua mãe, Irmã Vanda, costurava para vender. Assim dona Vanda sustentou suas três filhas, seis netos e quatro genros vagabundos e preguiçosos com muita alegria e disposição.
Aos dezesseis, Evinha sobrevivia e sobrevoava já como um pequeno prodígio em sua congregação. Não tinha uma festa do coral ou do círculo de oração que ela não tivesse colocado a mão. Vestidos, paletós, gravatas, cortinas e lenços. Tudo ela fazia. Ainda assim não começava a ficar inquieta. Eva alimentava um caderno de futuros projetos. Você sabe bem como é. Tudo começa como um rascunho, depois ganha pretensão de sonho.
Evinha fez um tecnólogo em Design de Moda. Um pródigo. Fez estágio na maior loja especializada do Recife. Aos vinte anos, sonho interrompido. Engravidou no primeiro mês após se casar, meio que na base do improviso e pressão familiar com o irmão Virgílio. Gente muito boa. De sua igreja. Porteiro.
De toda forma a coisa não engrenou. Aos sete e poucos meses, quase oito, Eva pega Virgílio no flagra no, deitado no sofá de casa com o irmão Diógenes, seu primo de primeiro grau. Sem problema. Não fez escândalo algum. Deixou passar. Virgílio virou seu melhor amigo desde então.
Era um ótimo pai e até quebrava um galho quando voltava animado de um culto festivo de domingo. Adora vê-lo todo lindo em um modelito que tinha sido feito pelas suas mãos. Quanto ao primo, pediu descrição.
Quando precisava consertar o telhado, jeitar a cerca, subir um pouco o muro da frente ou cortar o mato do quintal ligava pra ele. O primo vinha, ela passava o dia fora de casa. Não queria atrapalhar o serviço dos rapazes de modo algum. Pra mãe, não escondia nada.
A senhora que inventou de que eu tinha que casar logo.
Erro crasso. Dizia a mãe. Ela não retrucava. Mantinha a tradição de honrar os pais, ainda mais não tendo nunca uma figura paterna em casa. Sua mãe era seu tudo. No lugar de responder ironizava.
Ele faz tão direitinho, mãe. É uma delícia. Eu sei que ele gosta. Gosta muito. Até sugeri certa vez dele chamar o primo pra gente tentar algo diferente.
E ele?
Claro que não gostou da ideia. Ele é um homem crente!
No final de sua rua, conhecida como beco da lama, ela sonhara em abrir uma loja de roupa, igual uma série que ela assistia na televisão. Ela é mais uma amiga, fazendo os vestidinhos das irmãs de tudo que é igreja e denominação. Costuraria até para as freiras da capela pequenininha que tinha lá na outra rua.
Deus te livre, Eva. Onde já se viu costurar pra concorrência?
Não quis saber. Foi lá e fez. De primeira, dizem, ela não queria que as pessoas soubessem que era ela quem estava costurando para as noivas de Jesus. Depois abriu o jogo de vez: foi lá depois de uma missa e se ofereceu para desenhar e costurar, com seus próprios materiais e sem entrada, um conjunto de fardas que elas assim desejassem. Deu certo. Em pouco tempo se tornava a responsável pela feitura também das roupas das freiras de seu bairro. Um verdadeiro prodígio.
Com menos de seis meses inaugurou sua modesta lojinha. Dois andares, mais de 150 metros de pura energia, quase três dúzias de lâmpadas leds e uma placa luminosa destacando um letreiro todo de metal pintado de um amarelo ouro. Começou com roupas de noiva, depois avançou para moda íntima e infantil, passeio e esportivo, debutante e academia. Vendia de tudo. Uma belezinha só. Três meses e a lojinha fez uma pequena festa de inauguração.
Praticamente todo mundo do bairro compareceu. Do dono da boca ao cafetão, do pastor ao pai de santo, passando pelo delegado e a médica do postinho, que agradeceu pelos aventais personalizados recebidos em tempo. Precisou contratar mais três funcionárias. Às segundas, todas de rosa. Terças e quintas variavam entre um azul bebê ou um verde oliva e nas quartas-feiras era um bege bem levinho. Sextas-feiras era dia de vestimenta livre, isso antes de Dona Eva decidir não funcionar mais nas sextas. Quis ampliar para as meninas um momento só delas.
Tudo uma maravilha maravilhosa. Não ficou rica mas comprou um carrinho. Deu de presente para o marido uma padaria. Colocou a filha para estudar no exterior. Engravidou novamente. O Virgílio não dava sossego. Era uma coisa. O movimento da loja não era lá essas coisas todas.
Em mês de muita movimentação, mês das noivas, fim de ano, as coisas até fluíam. As meninas tinham que se virar em dobro para dar conta de tudo. Quando alagou a loja, em uma dessas chuvas inesperadas, Eva mandou aterrar e asfaltar a rua. Não mediu esforços. Negou, umas três vezes, aos diversos convites para entrar na política. Não precisava.
Tempo fraco, dava pra sair uns 10 pares de roupa. Não tinha problema algum. Nunca deixou de pagar o salário das meninas. Nunca atrasou nenhum centavo. Fim do mês, por volta do dia 20, enquanto a maioria de nós tinha que contar as moedinhas para comprar a mistura para chegar ao fim do mês, e Dona Eva recebia seu sócio. Caderno de contabilidade em mãos, café de qualidade passado no capricho, ar condicionado bem regulado para não atrapalhar a situação. Tudo no seu tempo.
Quinze vestidos de festa onde só saíram dez. Três pares de luvas, vinte metros de pano do mais fino corte, onze entregas feitas religiosamente. Endereços meticulosamente registrados. Ponto de referência e tudo.
Até mês que vem, minha linda! Fique com Deus.
Amém meu querido. Pra você também.
beijos e abraços. Loja fechada. Logo mais tem culto. A oferta extra, do amigo, é garantida para a congregação. Não esquece de colocar meu nome no caderno de oração, viu?
Tudo bem. Claro. Cada um precisa de um amigo bancário para ajudar a alavancar os negócios.



Comentários
Postar um comentário