Não é de hoje que o U2 desafina...
A banda irlandesa U2 lançou em meados de fevereiro. Intitulado “Days of Ash” ( dias de cinzas, em tradução direta). Esse é o último trabalho mais recente do grupo, que não lançava nada inédito desde 2017.
O EP é um ‘esquenta’ para um novo disco, e tem recebido inúmeras críticas, sobretudo pelo tom do trabalho, que tenta ser um ‘retorno às origens’ mas entrega algo pobre musicalmente e burocraticamente sem profundidade, com letras que vão do discurso genérico do “estamos em cima do muro” ao mesmo tempo em que tenta fazer uma autocrítica do grupo após sofrer críticas por suas posturas oportunistas e ligadas ao sionismo.
Acontece que, antes de ter colocado no mesmo balaio o Hamas e o Estado de Israel, e se posicionado (de forma genérica) contra o genocídio de inocentes, dois anos depois apenas, as relações de Bono e The Edge, guitarrista da banda, envolvendo uma venda de um hotel pertencente aos dois em Dublin e o banco Leumi, instituição israelense colocada na lista da ONU como empresa que financia, lucra e apoia a ocupação do território Palestino, da Cisjordânia e financiando operações militares mas região.
Como diz o ditado, “quem paga a banda escolhe a música”. Em 2023, auge do morticínio de mulheres e crianças, Bono, cantava para uma plateia seleta em Las Vegas, trocando os versos de “Pride”, homenagem ao líder negro Martins Luther King, pela estrela de Davi.
Agora, após ser muito criticada, a banda resolveu fazer uma média com seus fãs mais aguerridos. O puro oportunismo de posicionamento de ocasião, lançando esse EP com músicas que propagam uma certa ideia de “Vamos dar as mãos” resgatando um histórico passado de alguma militância relevante.
Se em “American Obituary” o apelo é que “a América vai se levantar contra o povo da mentira”, as “Lágrimas das coisas” não passam de uma água com açúcar com os arranjos que tentam emular “War” (de 1983) mas repete a pretensão de 2004, quando ficaram só na promessa.
Em “Song of The Future” Bono repete que “tá falando demais”, reforçando mesmo a ideia de que ele gosta mesmo de ouvir o som da sua própria voz, mas falta realmente a poesia.
Sim, Bono, o mundo vai se alinhar. Em tempos de redes a sociedade do espetáculo não deixa nada passar. E mesmo com as homenagens e um suposto lado, a crítica de ocasião não colou, e veio junto com um som esquecível, que não agradou se quer os fãs mais religiosos da banda.
Em tempos de sociedade do engajamento e da troca rápida de informação, se colocar em cima do muro, sobretudo para quem banca a postura de bom moço, não rola. E já que o discurso político da banda de confunde com sua crença, vale o conselho do livro de Eclesiastes 7 versículo 5.
*Essa resenha foi escrita para o Instagram da Aliança Palestina, em meados de março de 2026.



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