Irene

  


Lá vou eu visitar dona Irene para a casa de mãe em plena hora do almoço. Dona Irene, minha avó, mãe de meu pai. Na pauta, amenidades. O horário não era oportuno. Era o encaixe de um intervalo entre um turno e outro. Dava para imaginar se o encontro perderia mais para a música do Caetano ou para a poesia do Bandeira.

Dona Irene, minha vó, mãe de meu pai, tinha saído de Pernambuco fazia mais de vinte anos. Quando dj ocorreu eu não tinha ainda nem perdido meu primeiro dente de leite. A coroa, uma resenha. Bastante lúcida, me recebeu com o chamado abraço de vó, que, dizem, é sempre infalível, perguntou a mãe quem eu era, já que, de três filhos homens era preciso as formalidades para evitar gafes, e após a quebra do protocolo, com o almoço antes de todos, pela exigência do horário, uns quarenta minutos de uma boa conversa aproximou duas gerações replicando aquele velho ritual de honra aos mais velhos.

- Tu tais com quantos anos, menino?

- E a senhora, como foi a viagem até essas bandas?

- Tenho outro neto que também não gosta de carne. Pequenininho ele.

- E a saúde, como é que tá?

Fim do almoço e as inevitáveis comparações com a minha mãe. É a tua cara! Antes da foto oficial e do abraço de despedida, uma oportunidade para uma galhofa: uma de minhas tias, mais velha que eu dois ou três anos apenas, levou de presente um irônico bençã tia, para carregar na bagagem. Valeu o sorriso.

No final não foi uma poesia do Bandeira nem uma canção do Caetano. Mas a dona Irene, que criou bem uns 12 filhos num Brasil dos anos 60, da ditadura militar e de tanta pressão e pouca alternativa a não ser sobreviver, mudar, se adaptar e ir fazendo aquilo que se dá, me fez conhecer essa lado passado de um país que pouco nos foi contato, e só a sabedoria dos anos, a experiência da vida pode nos dizer.


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