Até a Bulma tem boleto pra pagar...
(Ou, "Nude". Aquela música do Radiohead)
Parece engraçado. E é. Mas também diz muito sobre o chamado mundo nerd. A dubladora da personagem Bulma, do famoso desenho Dragon Ball, Tânia Regina Gaidarji, entrou para uma plataforma de criação de conteúdo adulto.
Ela, que tá muito bem aos 62 anos, faz um tipo de conteúdo bem específico: manda áudio performando a personagem que lhe consagrou.
O detalhe (até meio triste) é que ela é chamada de "musa dos virjão" e tem em seu público homens na base de seus 40 anos, que cresceram tendo na voz (e na personagem) uma referência de certa nostalgia adolescente.
Não tá fácil pra ninguém. Ela tá ganhando uma grana. Apesar dos likes nas redes e do nome consagrado da atriz, sabemos que infelizmente o trabalho na dublagem não é sinônimo de instabilidade, além das atuais ameaças dos atores serem gradativamente substituídos pelas IAs.
Sim. A voz da Bulma precisa pagar seus boletos.
Mas não podemos deixar de pensar nessa juventude alijada, muitos com uma vida social nada saudável, vitimas desses movimentos misóginos que torna a chamada cultura pop um pouco mais cinza do que mostram as fotos.
Estamos falando de homens de 40 anos que tem fantasia com uma personagem de desenho animado. Sim. Adolescentes de 40 anos.
Me refiro a essa geração insegura, não realizada, frustrada que temos. Que tipo de nostalgia é essa, quando o que vemos no mundo nerd é um monte de marmanjos que tem ódio das mulheres, misóginos, homofóbicos, racistas e que tratam essas questões, ora com aquele apego do "no meu tempo era melhor" ou do "não coloque política no meu gibizinho".
A indústria cultural está em seu melhor momento. Estamos falando de filmes que geram bilhões em bilheteria, ao mesmo tempo que vender centenas de produtos de suas marcas. E esse público, que antes era bem reduzido, podemos dizer assim, se vê espantado com certas mudanças de rumo.
Quando colocamos uma lupa em questões como essa, e a transferimos para o mundo real, notamos o quanto a cultura pop, ao mesmo tempo que continua sendo esse ambiente tóxico, numa sociedade dos Redpills da vida, escorrega em situações como essa (consumir, escondido, conteúdo semi adulto no mesmo ambiente que muitos dizem odiar).
Vocês conhecem o tipo: homens inseguros e infantilizados, que se escondem em perfis falsos, destilam ódio nas redes e disfarçam essa frustração em argumentos.
Quem não lembra da campanha de ódio contra o filme da Barbie (mesmo sendo a Margô Robie) ou das recorrentes insinuações de que "mulher não sabe jogar videogame", "mulher não entende nada de gibi", "mulher não tem que ser protagonista de filme ou série", quando, na verdade, a vergonha alheia, o que temos é o marmanjo de 40 anos batendo uma escondido para uma personagem de desenho animado enquanto esbraveja sua masculinidade viril idealizada, e em franco estado de extinção nas redes sociais, com direito a foto fake em perfil falso do X ou do finado Facebook.
Masculinidade fragilíssima, que não se sustenta até a terceira e reveladora cerveja. A Tânia Regina está certa. E tenho certeza de que ela não está fabricando seguidores de modo nenhum.
* Essa crônica foi escrita para a página do Recife Comics. Um coletivo de colecionadores, produtores de conteúdo e leitores de HQ em geral, do Recife. O grupo existe desde 2018.



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