Bilhete




Você já deve ter ouvido a expressão eu tenho mais carnavais que você ou algo parecido. Na terra do Frevo e do Maracatu, do Samba ou dos grandes desfiles apoteóticos, ser brasileiro é ter o Carnaval como definidor. Não tem outra. Até quem viveu entre as ladeiras de Olinda e hoje se esconde por trás de uma Bíblia ou religião qualquer sabe falar sobre esses quatro dias.

A mim vem as lembranças dos Carnavais do início dos anos 2000, em que eu, meu irmão mais novo, Denilson, nosso vizinho, Jessé, meu primo, e mais alguns amigos, seja do bairro ou da escola, montavam uma verdadeira operação para os quatro dias ou dois, caso o pouco dinheiro desse, pra gente ir só Cabo de Santo Agostinho, Litoral Sul, 35 KM do Recife.

A gente pulava o muro da estação de trem e íamos até a estação Curado. Lá, tínhamos que passar pela catraca um bilhete de papel meio fuleiro, aí sim pegávamos o metrô em direção a estação Recife, de onde íamos andando até o Marco Zero, passando pelo Cais de Santa Rita.

 Nesse tempo ainda não existia as integrações metrô/ônibus, nem as estações de metrô que nos permitia sair de Cajueiro Seco, em Jaboatão dos Guararapes, até o Recife. A outra opção, pegar o ônibus saindo do Cabo até a Praça do Diário, não tínhamos. A gente pulava a estação do trem e íamos para o Carnaval apenas com a passagem de volta. Contadinha. Se tivesse alguma moeda sobrando, interava para comprar uma garrafa do vinho Carreteiro, e um espetinho.

Mas o melhor de tudo eram os momentos de tensão ao chegar na estação Curado. O bilhete tinha que ser passado numa catraca eletrônica. A gente colocava o bilhete num buraquinho e, se a luz ficasse verde, tudo certo. Se desse algum problema com o tal do bilhete, a máquina devolvia ele e a gente tinha que passar de novo, tendo um fiscal ali, de olho. Se o cidadão tivesse sorte, o fiscal não veria que a data de validade do respectivo bilhete estava vencido, e a gente não teria que passar pelo constrangimento de ficar ali no cantinho, esperando um outro funcionário, ou a PM, vir nos constranger a pagar uma passagem que a qual não tínhamos.

Geralmente essa segunda (ou terceira) passada na máquina terminava por liberar a passagem. Quando não, a quantidade de gente era tanta que o fiscal, por vezes, mandava passar pelo lado dos funcionários, sobretudo quando juntavam uma certa quantidade de pessoas com esse tipo de problema nos bilhetes. No Carnaval a coisa era sobretudo arriscada, especialmente pela polícia fazer as vezes de fiscais em dia de folia. Com eles a coisa era ruim, correndo o risco de ficarmos sem o troco para o Antigo.

Geralmente comprávamos salsichão, para poder render mais, além do mesmo apresentar a possibilidade de ser dividido de um modo mais igualitário. A outra opção, frango com bacon, era muito caro. Molho de alho, muita farinha e a gente passava a noite dividindo aquele vinho. Um gole ou dois para cada moleque, o suficiente pra gente se achar adultos demais para voltar pra casa, especialmente sabendo que, no meu caso e de meu irmão, o cadeado era fechado lá em casa sempre às vinte e duas horas, religiosamente. Passou das dez, dizia nosso pai, não abro mais a porta nem pra minha mãe. E ele fazia isso mesmo.

Quanto a nós, não ligávamos. Fazia muito mais sentido esperar o dia amanhecer, voltar pra casa sentados do que encarar o Cais de Santa Rita lotado de foliões, depois de um show da Nação Zumbi, Lulu Santos, Paralamas, Titãs, Skank ou Los Hermanos, todos shows que tivemos a oportunidade de poder ver, de graça, num Marco Zero cheio de esperanças, alegrias e realizações.

Imagina se a gente ia se negar a ir para um show desses só por conta de uma passagem que faltava? Naqueles tempos não existia a vantagem de um Uber da vida. Pegar o celular, esperar numa esquina enquanto se termina uma cerveja, ou mesmo combinar por telefone onde iria se encontrar com os amigos. Não era assim. A gente tinha que passar na casa do outro, marcar um ponto de referência quando se precisava ir ao banheiro ou então ir todo mundo junto, pra evitar assalto ou baculejo.

Uma vez eu voltei pra casa sem meu irmão mais novo. Ele tomou um “quequéu” com uns amigos do lado playboy de nosso bairro, o lado do asfalto, e se debandou com eles. Não fiquei preocupado. Levei aquela bronca da coroa quando cheguei em casa sem o caçula.

Tempos muito bons, aqueles, quando a gente, tudo tabacudo, ficava de boas tomando vinho ruim a conta gota. O famoso tempo das vacas magras, mas a gente não deixava de ir. Pagar ingresso pra ir num show de uma banda grande era algo simplesmente irreal pra gente.

Hoje, vemos a cidade trabalhando para expulsar e excluir os mais pobres. Os meninos que talvez nem tenham a oportunidade de ver um Alceu Valença, Fred Zero Quatro ou um Lenine fazendo o nosso carnaval. E olha que eu nem cheguei perto de ver um show da Nação Zumbi com o Chico Ciência em pessoa.

A cidade hoje, no hall das empreitadas e empreiteiras, nos esquemas dos milionários patrocínios das Bets, que estão privatizando até às placas de ruas, trabalha para elitizar essa festa do povo, deixar nossa juven trancafiada nos morros e favelas, não consegue mais abrir os braços para receber esses meninos. Esses que ainda insistem em pular a catraca, entrar pela porta dos fundos dos ônibus cada vez mais lotados, com uma passagem cada vez mais cara.

A cidade hoje mata, enfrenta e distorce os meninos que não tem muita opção de cultura, mas seguem resistindo e descendo o morro, com seus espetinhos, vinhos de procedência duvidosa e muita disposição para contar, viver, guardar e escrever histórias. Muitas delas, mesmo que nem todas sejam repletas de um final feliz.


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