Casarão no morro...





Dizem que no alto daquele morro escondiam-se muitas coisas, muitos tesouros, coisas da época do império e do tempo de agora. Dois moradores de rua, Cosme e Sandra, casal que se conhecera e tecia amor naqueles dias difíceis entre nãos e poucas esmolas, despertaram demasiado e estranho carinho por uma determinada casa, um casarão antigo, dando bobeira e sopa no cume daquele morro. Porém, a casa, visivelmente abandonada, aparentemente tinha um dono.

 O casarão quase não tinha mais teto. Telhas antigas, esburacadas, paredes tomadas pela maresia e pelo mofo, escondia dos olhos curiosos, procurando ocupação e abrigo. Dia após dia, jovens, armados até os dentes, vigiavam aqueles torpes cômodos. Era como se houvesse ali uma rotina estabelecida, uma escala bem montada, e aqueles jovens seguiam, vigiando o espaço, jogando seus dominós, baralho, ouvindo rádio, jogando conversa fora, mas, dali não arredavam. Mesmo embaixo de bruta chuva. Dia passava, mês, ano, nada feito. Ninguém faltava, ninguém chegava atrasado, ninguém ousava sair antes da hora.

- O que poderia ter naquele lugar?

 Era o que todos se perguntavam. Os "vigilantes", dia após dia, se revezavam e a vida seguia...

Um belo dia iniciaram uma grande reforma naquele casarão. Foram dias e mais dias de martelos e pregos, sacos e mais sacos de cimento entrando e saindo daquele local. Tal obra que foi feita, não se sabe. Novos moradores? Nada. Tudo permaneceu na mesma toada e na mesma intenção. Nem os buracos do telhado foram concertados. Cosme e Sandra espreitando tudo, imaginando o fim de tudo aquilo. Mesmo com a temporada de martelos, a vigilância não atrasou um só dia se quer. Cessado os martelos, silêncio e abandono aparente voltam a assolar aquela casa. O casal bolara um plano: em um dia de muita chuva, atinaram bater naquela porta.

- Um estio para um pobre casal de desafortunados.

- Nada. Aqui não é motel de vagabundo.

Passam-se os dias entre rotinas, jogadas e adereços. Mesmo com o Carnaval, mesmo no Ano-Novo, mesmo na Semana Santa, e a guarda não esmorecia. Foi aí que alguma coisa aconteceu. De repente, tiroteio no morro. Caverão subindo botando quente em tudo. Sangue escorrendo pela calçada. Os jornais falariam sobre o ocorrido dois ou três dias seguidos. Depois, nada. E, por alguns dias, a casa ficou desguarnecida, desprotegida, desvigiada. O jeito foi entrar, matar a curiosidade, espreitar por aqueles grandes mistérios. A vida nas ruas podem ter muito de terror, muito de perigo, muito de silêncio e muito também de curiosidade e tédio. Da reforma, nada. Um zero. Todo o trabalho, parece, foi para derrubar umas paredes, reforçarem outras, quebrar os azulejos, ninguém sabe pra quê.

- Será que estão vendendo essas pedras? Serão elas, de alguma maneira, valiosas?

Resposta não se teve. O casal encontrou abrigo e, durante dias, fizeram daquele seu castelo, sua morada. Passaram-se os dias. Meses. E Sandra e Cosme até se esqueceram e toda vigilância e zelo. Até um rádio de pilha que aqueles jovens usavam agora pertenciam a eles.

- E se eles voltassem?

-O que se haveria de se perder? Não se perde muito quando não se tem nada.

Alguns dias, depois de um intenso rala e rola, a jovem encontra brutalmente em uma das paredes lá do fundão da casa, perto do banheiro. A área mais tomada pelo mofo em uma parede toda infiltrada. A mão passou que por inteiro. Na hora, o susto: algumas paredes, quase se não todas, eram, na verdade, recheadas e preenchidas por cédulas mais cédulas de dinheiro vivo, delicadamente contados, separados por valor e empacotados em sacolas plásticas, plástico bolha e tudo mais que era possível para se proteger aquele tesouro inesperado. O casarão pertencera a uma grande empresária do ramo do comércio, de sobrenome difícil, de cara besta e roupas espalhafatosas, daquelas madames que costumavam aparecer em entrevistas no Fantástico. O nome, claro, não direi aqui pois não sou é besta. Mas, antes do crime organizado usar as chamadas Big Thecs para lavar seu dinheiro, era assim que se fazia aqui no Rio de Janeiro. E haja parede revestida.

Fez-se uma festa. Só que, antes de sair, os novos inquilinos deram-se por métodos a besta. Nem contaram quanto de dinheiro tinha na primeira bolsa do primeiro pacote da primeira parede que eles bateram. Desceram o morro sorridentes, subiram mais sorridentes ainda. Dizem que fizeram uma feira tão grande dentro da favela, ajudaram tanta gente, deram um ao outro um banho de loja daqueles, tudo sem pedir de volta troco. Olharam, pediram, compraram. Gastaram tudo que lhes eram de direito. 

Quando a coisa rareou pegaram outro martelo. Foram de fininho, ajeitando e escolhendo onde descontariam seu tempo e sorte de maneira contente. Não deu outra: na primeira lapada, um pacote enorme, só de nota de 100, fininho, sem nenhum amassado, tirado na hora de alguma conta de deputado do baixo clero, de algum senador do centrão ou de um dízimo gordo de algum traficante para algum pastor caloteiro. E seu tudo certo. O casal só não contava com a fama da casa, com o barulho que a falta de troco das moedas caindo faziam nem com o rastro infeliz que tanta alegria deixava.

 Passados quatorze meses certinhos e os vigias deram de voltar para seus postos de trabalho. Talvez não os mesmos, mas na mesma função de antes. Não deu outra: foram sete balas para a esposa, seis tiros para o marido contente. Sandra e Cosme são lembrados até hoje. Metade da grana que pegaram foram gastas com os moradores daquele morro. Mas a banca sempre vence e a lição fica. A gente contado assim, nem parece que essa é uma das verdades que as ruas e o povo nos conta. Não se perde muita coisa quando não se tem nem bem a metade de coisa nenhuma.


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