Não Viaje. . .




Jean anda a pé. Com sapatos gatos, com direção traçada e pressa. Pressa e relógio. Pressa e atraso. Na cabeça o sol, sem boné. E quem disse que ele aguenta o calor? Andar devagar só na poesia e na música do Simoninha. Jean anda a pé pra economizar uma passagem no VEM mais um dia. O mar, só lá perto de sua casa. Mas ele só ver quando passa de ônibus pela manhã. O 071, custando R$4,70, fazendo o dono da Borborema Imperial Transportes Ltda sorrir livre e leve. Sem dúvida aquele ali nunca andou de “busão” na vida. Mas Jean anda a pé, sem dinheiro, mas com todos os documentos, pra variar, numa carteira velha. Vinte contos e um VÊM. Se morresse agora, seria essa a sua herança maldita pra vida.
De repente, um barulho: Passa a carteira, “feladaputa”. Um barulho, um susto, um assalto, um tiro. Um mero moleque acabando com os pensamentos moles que passeavam livres na cachola de Jean, mais um liso. Andando a pé para economizar uma passagem e, de repente, os versos de Cruz e Souza, junto com os versos de Simoninha se espalhavam agora pela calçada mal calçada. Vinte conto e um VEM trabalhador, emprestado de sua tia. Emprestado, não. Emprestado uma vírgula. Ele alugava da tia para ‘ajudar’ nas despesas de casa. Da casa dela. A dele, muitas vezes, nem importava.
E dá pra parar pra pensar nessas coisas de casa numa hora dessa? Quando um ‘boy do bote’ vem e leva tua carteira furada, teu RG colado com fita, aquele calendário da padaria com o número do telefone de Carminha (ela não usa zap. Foi também assaltada), a quem ele prometera ligar assim que arranjasse um tempo no trabalho, tão corrido quanto o Peter Parker naqueles primeiros filmes do Homem-Aranha. E ele ia ligar pra ela pra quê mesmo? Que atrevimento! Não tem um SUBWAY pra levar a garota, tem nem uma grana sobrando pra dividir um motel, sei lá. Vai que rola. Sim. Tinha também uma camisinha na carteira. Daquelas de posto, sabe? Aquelas que ninguém usa; deixa dentro da carteira pra enfeitar. Em meu tempo gostávamos de guardar uma dentro da carteira pra demonstrar sabedoria, status de moral e sanidade. Aquilo era uma espécie de auto-afirmação da identidade masculina. Sei nem se ainda fazem isso hoje em dia. Pegasse desprevenido, lá estava a camisinha. A mesma, pra variar. “bando de tabacudo, vocês. Quando vê isso sabem nem beijar!” era o que dizia Andreia, uma das rainhas da escola. Aposto que a camisinha na carteira do Jean tivesse a mesma serventia: vencida de meses. Usada como alguém amuleto de otário. Mas o ‘dono’ levou. Posso apostar que nem validade tinha.
“Vozes veladas, veludosas vozes, volúpias dos violões, vozes veladas, vagam nos velhos vórtices velozes dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas”. Pensando em poesia, na poesia, em Cruz e Souza e, num deslize, um assalto lhe faz sentir na pele essa pressa dos “soluços ao luar” os “choros ao vento” junto com um monte de palavrão, baixinho quase sussurrando, como aquelas história que, a gente contando, custam acreditar. 4 km de distância da Avenida Conde da Boa Vista até a Encruzilhada. 15 minutos mais ou menos de ônibus. 203cal andando.  221 se for fazendo uma corrida lenta. E quem foi que disse que essa andada toda era pra garantir saúde? R$4,70 no 071, mais R$3,45 só de ida, isso dá R$8,15 pra ir e pra voltar. Mais de quinze conto pra procurar um emprego, voltar do trabalho, ir pra um show qualquer. Viver. Mas o filho do governador ou do prefeito, aposto, não andam nem de taxi. UBER? Nem pensar. Coisa de desocupado.
Jean pensando em poesia, cantarolando para se iludir e sendo assaltado antes de voltar pra casa em plena segunda feira. Agora conta uma história pro ‘boy do bote’, que lhe quebra um galho (um assaltante sem comida, cheio de cola na mente e possuidor de um enorme coração) e lhe devolve o vem e ‘vai! Vaza simbora daqui feladaputa’.  Poema na rua e em casa. Imagina a cara da mãe quando chegar sem aquele um real de pão pra tia? “É proibido pensar”. Outra música tocando ao fundo de seu velório veloz, velado valendo, trazendo vento ao ver a vida esvaindo-se devagar. “Formidável Mundo Cão”. Aí à volta no 071 é triste, melancólica e vazia. Fria apesar do calor, fria apesar da lotação e da ida da adrenalina e da coragem que nos toma sempre no fim do dia. Que vergonha vazia e vadia. Violência velada em vias de ver o verão. Vinte contos e os versos do Cruz e Souza. O ‘boy do bote’ venceu mais uma vez.
E quem é o ‘boy do bote’, perguntará o leitor confundido. Bairrista, dirá outro, talvez. Que literatura tendenciosa. Mas não é preciso traduzir. A dor é universal. Não dá pra fazer poesia quando se passa fome, não se tem emprego nem o remédio pro filho pequeno sofrendo com dor de cabeça, de dente ou barriga. Não se pode falar só de amor e de alegria. O poeta não é um arauto do amor incondicional ou alienado. A poesia é pra se falar de vida e a vida vai mais além, não cabe num soneto de alegria. A vida vai mais além e exige de nós algo bem mais além.  A dor é universal, assim como a fome ou a rima, o medo e a vergonha. A cara do Jean não precisava de legenda nem tradução. Vinte conto e um susto. Amanhã não vai ter cinema. 


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